O túnel da consciência


Algumas pessoas me perguntam qual o momento mais bacana que passei vivendo as histórias que conto no livro Extremos do Mundo. É difícil dizer, pois toda a experiência de viver esses dias cruzando os hemisférios foram muito únicas.


Entretanto hoje, gostaria de abordar um desses momentos únicos que foi a travessia do túnel de Nordkapp que liga o continente à ilha de Mageroya na Noruega, o extremo norte do mundo, onde as estradas terminam e o que nos resta é mar. Para quem não sabe, o famigerado é uma obra-prima da engenharia norueguesa, possui quase 7 km de comprimento e mergulha 212 metros abaixo do nível do mar. Agora, por que a travessia desse túnel foi um momento tão especial para mim? Bem, você lerá em detalhes essa história no capítulo 9 do livro, mas hoje, gostaria de fazer algumas inferências de ordem muito pessoal nesse episódio.


Devia ter uns 7 anos de idade quando me lembro que fiquei sozinho, preso em um elevador no edifício onde morava com meus pais. Nunca assumi, mas esse trauma infantil me perseguiu por anos e sempre foi guardado em uma espécie de uma caixinha, dessas que ficam escondidas em nossa mente e que juramos para nós mesmos que ela não existe.


45 anos depois desse episódio, em uma fase de planejamento das minhas expedições de bike, vi que existia um túnel para se chegar a Nordkapp. À princípio, achei interessante, desafiador, mas aos poucos fui me dando conta que havia outros elementos envolvidos nessa proposta de travessia: um lugar fechado, escuro, com pouca ventilação. Ao descobrir isso comecei a me assombrar. Afinal, como faria para concluir o sonho de chegar ao extremo norte do mundo passando por um ambiente claustrofóbico sem realizar a experiência da travessia? A conclusão dessa história você pode ver em detalhes no livro Extremos do Mundo, clique aqui para comprá-lo.


Atenção: spoiler do livro a partir daqui.


O que gostaria de falar é sobre nós. Sobre monstros e coisas que guardamos, às vezes sem perceber ou até por medo de encaramos uma situação da maneira como ela pode se apresentar. O segredo do sucesso da travessia desse túnel esteve justamente em buscar algo maior, um tesouro, que residia dentro dele, a libertação. Esse desejo estava armazenado em mim, sempre esteve, porém adormecia há 45 anos. A libertação do medo e a busca da luz como fonte de energia para continuidade da minha caminhada foi o que me fez concluir essa travessia submarina com sucesso.


Campbell diz: "Na caverna que você tem medo de entrar, está o tesouro que você busca".


Estava certo que poderia encontrar esse tesouro, mas para isso teria que me desvencilhar dos medos que me rodeavam, entre eles, uma eminente claustrofobia. Como num jogo de xadrez fui tático, pois sabia o que realmente queria para mim. Quando temos consciência do que queremos amar, a vida fica mais dócil para nós e, por consequência, para os outros. Assumir as responsabilidades de um sucesso ou mesmo de um fracasso fazem parte de um jogo onde o objetivo é estar bem conosco. A vida muda, tudo muda, assim quis entrar nesse ritmo, propondo-me mudanças que só aconteceram porque estava consciente que a travessia do túnel me seria a melhor opção.


Hoje em dia, o medo da escuridão desapareceu. Já o de lugares fechados e sufocantes, não tanto, mas totalmente compreensível uma vez que nunca me vi enclausurado em uma caixa hermética, seja em um elevador, num túnel ou na vida.


Lembro que após o sucesso da travessia, parei a bike, sentei na sarjeta e chorava como aquela criança de 7 anos que sempre buscou ser livre, refletindo novas ideias, ignorando normas ou preconceitos padrões utilizados comumentemente para satisfazer não os nossos desejos, mas os dos outros.



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