O mundo blasé


À la carte, boutique, vinaigrette são alguns exemplos de palavras emprestadas da língua francesa, às quais usamos correntemente em nosso dia a dia. Dentro dessas, há uma, talvez não tão famosa, mas que exprime a história que vou narrar, o mundo blasé.


Atravessei o Brasil de norte a sul em 2020 e foi uma das experiências mais incríveis que já vivi. A viagem era intensa, programação todo dia. Ao contrário do que muitos pensam, a expedição foi mais um desafio do que um estado de contemplação. Passei por lugares lindos como a aldeia indígena Tukai no AP, outros abençoados como o farol de Santa Marta em SC, mas sempre foquei algo mais grandioso, no caso, a Barra do Chuí, no RS. Dessa forma, não parava um segundo, não tinha como perder tempo; quando chegava, era banho, compras no mercado e um pouco de descanso; a expedição continuava horas depois. Minha vida na jornada era assim, mas a vida em nossa jornada cotidiana também deveria ser.


Em uma das etapas da expedição, saí de Miranorte no Tocantins com destino a Lajeado, 48 km a partir da TO-342. Estava desgastado fisicamente quando fui pego por uma inacreditável onda de calor de 55 graus. Resolvi parar na cidade para descansar e lá, passar uma noite. Ao entardecer, já acomodado no único quarto de hotel que a cidade dispunha, reparei uma fumaça preta entrando pelo ar condicionado. Saí rapidamente para verificar achando que o problema fosse no aparelho; não era. Naquele instante, vi que uma nuvem preta de fuligem cobrira a cidade. Com o ar seco, tinha sérias dificuldades em respirar; fui buscar ajuda. Encontrei a dona da pousada que olhou para mim não tão assustada e num ar blasé comentou: não se importe, pois a mata ao lado está pegando fogo e essa fumaça permanecerá durante toda a madrugada. Completamente indisposto com a situação, consegui arrumar um resgate que me levou a Palmas onde pude me recuperar por 2 noites para a continuidade da expedição até o Chuí.


O que quero chamar a atenção é que acostumamos com as coisas, boas e ruins. Parece que não nos damos mais o trabalho de sentar, pensar e refletir o que é de fato melhor para nós. É isso que chamo de mundo blasé, o mundo da indiferença. É um estado entre a vida e a morte; pior, onde a indiferença reina, tornando-nos insensíveis a o que é novo, mais chocante ou o que se apresenta diferente.


Nesse dia em Lajeado, senti isso na pele. Inconformado pela queima da mata, corri para buscar ajuda em vão, onde as pessoas, como robôs, ouviam música em frente a um mercado enquanto respiravam tranquilamente aquela fuligem tóxica. Fugi de lá, reparei que a morte se mostrava lenta, não somente devido ao prejuízo à saúde daquelas pessoas, mas pelo fato dessas fecharem o olhos para um acontecimento tão visível.


Temos a tendência de transportar isso ao nosso dia a dia, ou seja, fecharmos os olhos para o mundo em plena mudança e acomodarmo-nos em um carrossel onde visualizamos sempre as mesmas imagens e sentimos o mesmo odor.


Sabe, o projeto me ensina o tempo todo e diz que esse mundo blasé não faz parte da minha jornada. A paralisia e a estagnação corroem lentamente a alma e o querer mais e melhor fica esquecido e de lado. O olhar da indiferença, do tudo bem, do tanto faz são cruéis, mais do que a morte de algo, que acaba nos premiando com um fim e um recomeço de uma vida nova.



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