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NÃO É SOBRE LUGARES, É SOBRE PESSOAS - TURQUIA

16 de set.
3 min de leitura

Estava quase anoitecendo em Mudanya, Turquia e depois de mais de uma hora procurando um lugar selvagem para montar minha barraca, avistei duas pessoas em um estacionamento de trailers. Parei e perguntei, com a ajuda do Google Tradutor, se poderia passar a noite ali. Eles não falavam inglês, eu não falava turco. Mas, de alguma maneira, a conversa aconteceu.


Afastaram o carro para que eu pudesse montar a barraca protegida do vento. Depois me ajudaram com a montagem. Mais tarde, um deles me chamou para tomar um café dentro do trailer. Ficamos ali por horas, conversando através de um translator que reproduzia nossas palavras. Contaram-me que eram irmãos e búlgaros e haviam sido expulsos da Bulgária e obrigados a trocar de nome e de pais logo após a queda do muro de Berlim em 1989. Deram detalhes da violência a qual foram submetidos e isso mexeu comigo.

Quando finalmente voltei para a barraca, já tarde da noite e ainda refletindo, um deles me chamou: amanhã, café da manhã.


A noite foi fria e chuvosa e logo pela manhã, fui tomar café com os dois. Sabe quando você encontra alguém que parece não saber mais o que fazer para te ajudar?


Naquele momento, pensei novamente em algo que o Giraventura vem tentando compreender há alguns anos: não é sobre lugares. É sobre pessoas.


Despedi-me deles e segui pela estrada. Feliz, mas com aquela sensação estranha de que gostaria que aquele encontro pudesse durar ter durado um pouco mais. Temos dificuldade de aceitar o fim das coisas.


Com esse pensamento, mais adiante, parei num cemitério quando uma caminhonete parou ao meu lado. Um homem desceu segurando quatro figos na mão. Aproximou-se de mim, falou algumas palavras em turco e me entregou as frutas. Voltou para a caminhonete e aparentemente um sinal de arrependimento o fez voltar ao meu encontro novamente. Disparou a falar como se eu fosse fluente em turco, mas esforçava-se para me explicar, com gestos e algumas palavras, como funcionava a produção de figos naquela região. Havia orgulho em seus olhos. Orgulho de mostrar aquilo que fazia, sua terra, seu trabalho.

Mesmo com a incoerência do translator, mal conseguia entender suas palavras, mas sentia perfeitamente sua alegria. E talvez seja justamente aí que a bicicleta faça alguma coisa que ainda não consigo explicar completamente.

Interesso -me pela ideia do desejo do Outro: somos atravessados pelo que imaginamos que o outro deseja de nós. Quando alguém vê um sujeito sozinho, viajando de bicicleta, talvez enxergue ali alguma coisa que deseja para si, liberdade, coragem, movimento, aventura? Não sei. Talvez a bicicleta seja apenas um convite.

Um convite para perguntar ou para se aproximar.

Para oferecer um café, um figo, uma informação, um cadeado? Para estabelecer uma relação.


Despedi-me e continuei a minha rota quando parei em um posto de gasolina apenas para fotografar os preços do combustível turco. Um jovem frentista, com idade para ser meu filho, começou a fazer perguntas sobre a cicloviagem.

Foram cinco minutos de conversa e quando percebi, ele estava dentro da cafeteria preparando um café para mim.

Antes de partir, pegou o telefone, anotou seu contato e disse que, se acontecesse alguma coisa naquela direção, eu poderia ligar. Ele daria um jeito de me ajudar. Novamente aquela sensação: eu queria ficar mais um pouco, mas esse mais é puro egoísmo. Voltei para a estrada.


Talvez seja essa a grande paradoxo de uma viagem como esta: a gente parte justamente quando começa a se sentir em casa.


Hoje pedalo levando comigo três encontros que não estavam no roteiro: dois irmãos, um agricultor e um jovem frentista. Nenhum deles sabia quem eu era. Nenhum deles conhecia o Giraventura, mas por alguns minutos, todos eles fizeram parte da minha história.


É por isso que continuo acreditando que o Giraventura me ensina: não é sobre lugares. É sobre pessoas. Porque lugares eu fotografo, as Pessoas eu levo comigo no meu coração, mesmo me despedindo delas.

3 comentários

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Thaz
17 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que encontros incríveis, tenho certeza de que eles se identificaram com sua liberdade e coragem de viajar de forma tão exposta e simples.

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Susi
17 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Sua forma de escrever sobre suas viagens faz a gente mergulhar junto. Como se estivesse conhecendo as pessoas. Sentindo o cheiro, o vento. Consegue transmitir as sensações. Mas estas, a gente sempre vai convidar a cada um descobrir, subindo numa bicicleta e indo também ..

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Eliane
17 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito lindo esse encontro!!!

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