NÃO É SOBRE LUGARES, É SOBRE PESSOAS - TURQUIA
Estava quase anoitecendo em Mudanya, Turquia e depois de mais de uma hora procurando um lugar selvagem para montar minha barraca, avistei duas pessoas em um estacionamento de trailers. Parei e perguntei, com a ajuda do Google Tradutor, se poderia passar a noite ali. Eles não falavam inglês, eu não falava turco. Mas, de alguma maneira, a conversa aconteceu.
Afastaram o carro para que eu pudesse montar a barraca protegida do vento. Depois me ajudaram com a montagem. Mais tarde, um deles me chamou para tomar um café dentro do trailer. Ficamos ali por horas, conversando através de um translator que reproduzia nossas palavras. Contaram-me que eram irmãos e búlgaros e haviam sido expulsos da Bulgária e obrigados a trocar de nome e de pais logo após a queda do muro de Berlim em 1989. Deram detalhes da violência a qual foram submetidos e isso mexeu comigo.
Quando finalmente voltei para a barraca, já tarde da noite e ainda refletindo, um deles me chamou: amanhã, café da manhã.
A noite foi fria e chuvosa e logo pela manhã, fui tomar café com os dois. Sabe quando você encontra alguém que parece não saber mais o que fazer para te ajudar?
Naquele momento, pensei novamente em algo que o Giraventura vem tentando compreender há alguns anos: não é sobre lugares. É sobre pessoas.
Despedi-me deles e segui pela estrada. Feliz, mas com aquela sensação estranha de que gostaria que aquele encontro pudesse durar ter durado um pouco mais. Temos dificuldade de aceitar o fim das coisas.
Com esse pensamento, mais adiante, parei num cemitério quando uma caminhonete parou ao meu lado. Um homem desceu segurando quatro figos na mão. Aproximou-se de mim, falou algumas palavras em turco e me entregou as frutas. Voltou para a caminhonete e aparentemente um sinal de arrependimento o fez voltar ao meu encontro novamente. Disparou a falar como se eu fosse fluente em turco, mas esforçava-se para me explicar, com gestos e algumas palavras, como funcionava a produção de figos naquela região. Havia orgulho em seus olhos. Orgulho de mostrar aquilo que fazia, sua terra, seu trabalho.
Mesmo com a incoerência do translator, mal conseguia entender suas palavras, mas sentia perfeitamente sua alegria. E talvez seja justamente aí que a bicicleta faça alguma coisa que ainda não consigo explicar completamente.
Interesso -me pela ideia do desejo do Outro: somos atravessados pelo que imaginamos que o outro deseja de nós. Quando alguém vê um sujeito sozinho, viajando de bicicleta, talvez enxergue ali alguma coisa que deseja para si, liberdade, coragem, movimento, aventura? Não sei. Talvez a bicicleta seja apenas um convite.
Um convite para perguntar ou para se aproximar.
Para oferecer um café, um figo, uma informação, um cadeado? Para estabelecer uma relação.
Despedi-me e continuei a minha rota quando parei em um posto de gasolina apenas para fotografar os preços do combustível turco. Um jovem frentista, com idade para ser meu filho, começou a fazer perguntas sobre a cicloviagem.
Foram cinco minutos de conversa e quando percebi, ele estava dentro da cafeteria preparando um café para mim.
Antes de partir, pegou o telefone, anotou seu contato e disse que, se acontecesse alguma coisa naquela direção, eu poderia ligar. Ele daria um jeito de me ajudar. Novamente aquela sensação: eu queria ficar mais um pouco, mas esse mais é puro egoísmo. Voltei para a estrada.
Talvez seja essa a grande paradoxo de uma viagem como esta: a gente parte justamente quando começa a se sentir em casa.
Hoje pedalo levando comigo três encontros que não estavam no roteiro: dois irmãos, um agricultor e um jovem frentista. Nenhum deles sabia quem eu era. Nenhum deles conhecia o Giraventura, mas por alguns minutos, todos eles fizeram parte da minha história.
É por isso que continuo acreditando que o Giraventura me ensina: não é sobre lugares. É sobre pessoas. Porque lugares eu fotografo, as Pessoas eu levo comigo no meu coração, mesmo me despedindo delas.




Que encontros incríveis, tenho certeza de que eles se identificaram com sua liberdade e coragem de viajar de forma tão exposta e simples.
Sua forma de escrever sobre suas viagens faz a gente mergulhar junto. Como se estivesse conhecendo as pessoas. Sentindo o cheiro, o vento. Consegue transmitir as sensações. Mas estas, a gente sempre vai convidar a cada um descobrir, subindo numa bicicleta e indo também ..
Muito lindo esse encontro!!!