Marília, SP


Passei bem em Guairaçá, uma cidade pequena, ao lado de Lins. Pousei na casa de dois idosos japoneses, que já me conheciam. Entretanto, ao chegar na casa, o Sr Eduardo me avistou e não quis abrir o portão, achou que eu fosse um mendigo pedindo comida. Logo depois sua esposa apareceu, reconheceu-me e abriu a porta.

Há três coisas que são essenciais nessa viagem, uma boa alimentação, um banho e um bom descanso. O resto é resto, porque depois de tudo isso eu me sinto purificado e pronto pra outra. Foram esses três itens que consegui em Guaiçara, era o suficiente.

Levantei hoje cedo, como de costume, saí para ver as condições meteorológicas e o céu estava azul; era preocupante. Diferentemente de ontem quando saí de Rio Preto com o céu nublado, o dia prometia calor.

Comecei a pedalar pela BR, passei por todas as entradas de Lins e segui rumo a Marília. Sabia que não seria fácil e logo os primeiros tobogãs começaram a aparecer. O forte calor e o excesso de quilometragem acumulada nos últimos dias levaram a média horária baixa. Não conseguia desenvolver, sentia-me estafado e os 72 km até Marília tornaram-se um dos maiores desafios da expedição até o momento.

Em um posto de estrada, conheci um cicloturista veterano, Clovis, que trabalhava no caixa de uma simples lanchonete do Posto Estradão, na altura da cidade de Guaimbê. Ao ver a minha bike, puxou conversa, contou-me suas peripécias e me deu várias dicas de caminho até o sul do país. Contou-me que já havia pedalado muito, inclusive pela Europa, até um dia que chegou a Aparecida do Norte, desapegou de sua bike, botou uma mochila nas costas e voltou pra casa. “A bicicleta trás a liberdade e isso não tem preço”.

Saí de lá extasiado com suas palavras que endosso. Também acredito que a liberdade de pensamento nas muitas horas que passo pedalando pela Transbrasiliana são formidáveis. Coisas que as pessoas querem se apropriar o tempo todo e te induzir a uma maneira de pensar e enxergar a vida.

O duro desafio de hoje abriu ainda mais meu pensamento a sentir a conquista de ser livre, pensar moralmente com a alma, incorporando e assumindo meus preconceitos. Sem câmeras se segurança pra me vigiar, nem ninguém falando no meu ouvido o que é certo ou errado. Era eu comigo mesmo, vivendo meus gostos e desgostos.

Custou-me um preço. A 20 km do final sentia-me estafado pedalando embaixo de um calor de 42 graus e já sem água. Avistei um restaurante simples à beira da BR, parei, pedi um PF por R$ 15,00 e rumei para Marília.

Depois do último pedágio uma grande rampa levava ao centro da cidade. Encontrei um vendedor de caldo de cana que me serviu dois copos gelados por R$ 3,00. Ainda assim não tinha mais forças, estava esgotado quando vi um hotel de beira de estrada. Desisti de ir ao centro de Marília, dei meia volta e fui ao hotel que tinha mais cara de motel.

Entrei no quarto, arranquei minha roupa e me coloquei embaixo de uma ducha gelada chorando. Logo depois caí na cama, dormi a tarde toda.

Há momentos que o corpo pede pra parar, hoje chegou a hora. Saí da programação inicial da expedição que sempre foi um orgulho pra mim; hoje virou fado. O planejamento transformou-se no meu dia a dia. Descansarei duas noites em Marília, estou no meu tempo.

“A gente precisa se dispor a abrir mão da vida que planejamos a fim de encontrar a vida que espera por nós”. - Joseph Campbell.


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