Marília, Ourinhos e PR

Atualizado: 24 de Nov de 2020


Extenuado, resolvi passar duas noites em Marília. O trecho de Guaiçara à Marília é uma baita de uma subida. Não consegui alcançar o centro de Marília, parei antes em um hotel à beira da estrada. Cheguei ao quarto, arranquei minha roupa, banho, um relaxante muscular e cama. Não jantei, acordei no dia seguinte ainda grogue.

Depois do café, verifiquei minhas mensagens no celular e vi que havia recebido um convite de um ciclista de Garça chamado João Daniel. João me convidara para conhecer a região, passaria de carro e iríamos a uma fazenda de café aos arredores de Garça para um rolê. Mesmo cansado, não recusei. A gentileza e a atenção do João foi incrível, passamos o dia juntos, cruzamos mais ciclistas, levou-me para pedalar em uma fazenda de café, pedalamos até cachoeiras e por fim contemplamos um maravilhoso pôr do sol às margens de uma rodovia onde pudemos ver todo o skyline de Marília. O que dizer do João? Nem sei, o ciclismo e a vida na estrada trás esse tipo de positividade a mim. Mal sabia que a proprietária do hotel que estava também era ciclista. Marizete me encontrou tarde da noite só pra conversar, trocar ideia, compartilhar informação. No final, forneceu-me um desconto no preço das diárias, o que me ajudou.

Dia seguinte, acordei cedo para cumprir os 100 km até Ourinhos e enfrentar a serra de Marília. Estava bem fisicamente, apesar do calor logo cedo. Passei facilmente pela serra e, apesar da jornada até Ourinhos teve 960 m de ganho de elevação, consegui alcançar a última cidade no estado de São Paulo na hora do almoço. Depois disso a fórmula mágica, banho e descanso, afinal a ideia era partir logo cedo, atravessar o rio Paranapanema e entrar no Paraná, o antepenúltimo estado da rota ao Chuí.

Logo cedo, antes de partir, recebera um convite do secretário de esportes da cidade de Ourinhos, o Danilo. Fez questão de me conhecer e apresentar os 35 km de ciclovias da cidade. Saímos com mais dois ciclistas para o rolê, a Marina e o Menon. No caminho, encontramos a Tálita, outra ciclista. Fico impressionado como o ciclismo possui essa magia e agregar pessoas. Talvez pessoas que jamais se falariam, com gostos diferentes, mas que certamente possuem uma paixão em comum, o da mobilidade ativa sobre duas rodas. Essa união me fascina, resgata todas as minhas raízes de infância e trás à tona o que sinto que há de melhor em mim.

Após o tour pela cidade, de algumas entrevistas e de me despedir de todos, parti para os 48 km até Santo Antônio da Platina, PR. A Tálita, que fazia parte do grupo, levantou o braço e se propôs a me acompanhar pela BR; corajosa, voltaria pedalando sozinha.

Seguimos juntos na BR quando o Paraná me deu ar de graça. Um conjunto de tobogãs e serras com vegetação e árvores imponentes na cor verde musgo começaram a fazer parte do meu novo cenário. O que não mudou foi o trânsito pesado de comboios de carretas pela movimentadíssima BR 153. Acostamentos desapareciam dando lugar a pistas duplas nas subidas extensas, obrigando eu e a Tálita a cambiar sistematicamente e pedalar no acostamento da contramão. Leve e com as pernas boas, Tálita disparava nas subidas enquanto eu puxava pra cima todo meu equipamento como se fosse um caminhão tanque.

Alcançamos juntos Santo Antônio da Platina e antes de nos despedirmos, Tálita comeu uma banana, deu meia volta e retornou a Ourinhos.

Entrei na pequena cidade, arrumei um hotel simples e fui aos procedimentos padrões, banho, comida e descanso.

Confesso que estou muito cansado, por isso resolvi mudar minha rota ao Chuí, entrar por Curitiba e percorrer a BR 101 até a divisa com o Uruguai. Mais longo, menos altimetria.

Como diria Joseph Campbell: “todos os deuses, todos os céus, todos os infernos estão dentro de você”. Na verdade, eles borbulham dentro de mim! A essa altura perco a noção de várias coisas, difícil julgar e ser julgado, difícil transparecer calmaria quando estou visivelmente tremendo e ansioso sabe lá o porquê.

Sou o que sou nesse momento, minha essência, mas com um ponto de luz no fim desse túnel que se chama Chuí.

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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