Jacundá

Dormi bem, mas pouco. Às 6 h, Edinaldo bateu na porta do quarto. Estava quase tudo pronto, só um lanche rápido, um café e partir pois o ciclista Adriano já nos aguardava na rodovia.

Saímos, tinha acabado de clarear, pela PA 150 com uma novidade, apareceram os acostamentos. Menos tensão para os 72 km de estrada até Jacundá. O desafio de hoje era altimétrico, vários tobogãs, um em seguida do outro que no final acumulariam 752 metros. Desafiador para quem carrega 20 kg de equipamento.

Edinaldo e Adriano pedalaram no meu ritmo, não havia muito o que fazer. Não conseguia desenvolver mais do que 16 km/h de média.

No km 35 tentamos parar em uma vendinha pra tomar um caldo de cana; fechada! Aí, Adriano resolveu voltar a Goianésia. Edinaldo parou, titubeou e tomou sua decisão: seguiria me acompanhando até Jacundá. Homem baixo, magro, mas com uma força nas pernas e uma disposição impressionantes.

Mais adiante uma vendinha de meio de estrada! Adoro esse tipo de comércio. Dentro dela um senhor forte, negro e muito, mas muito gentil. Ofereceu-nos o pão de queijo formulado pela sua neta enquanto tomávamos um refrigerante. Sr Ismael era um homem de poucas palavras, mas sabe que se enxerga a bondade personificada em um ser? Era ele! Algo atrai esse nome Ismael para o meu caminho. O famoso filho primogênito de Abrahão, segundo o Gênesis, já havia aparecido pra mim em um momento muito difícil em Vila Carnot, no Amapá. Salvou-me!

Seguimos juntos, sentimos juntos a piora da estrada, cheia de buracos, até chegarmos a um ponto no qual avistamos uma jibóia no meio da pista. Fazia 38 graus e o bicho parecia mal, mas ainda era possível vê-la respirar. Saímos imediatamente das bikes, pegamos uma carcaça de pneu jogado no acostamento e tentamos arrastar a cobra pra fora da pista antes que algum veículo terminasse de esmagá-la. A serpente era linda, parecia estar trocando de casca, sua parte de trás era colorida. Conseguimos levá-la ao mato, mas a cena era triste, pois respirava com dificuldade e mal conseguia se mexer. Joguei um pouco de água nela para ver se reagia, mas muito pouco. Fiquei deprimido, afastei-me e não quis mais olhar. Foi o que deu pra fazer, montei na bike de novo e parti com meu amigo.

Aquilo mexeu comigo sabe, ver a vida indo sem poder fazer muita coisa. Meu coração apertou e um filme começou a rodar na minha cabeça quando via o câncer corroer a minha mãe enquanto eu assistia à situação.

Entretanto, o fluxo de acontecimentos aqui passa na velocidade da luz, quando você se vê apegado a algo, seja lá o que for, pessoas, animais, paisagens, tudo já acabou, vira passado. Vivo uma vida de presentes, de presentes preciosos.

Cheguei a Jacundá com o termômetro do GPS marcando 42 graus. Edinaldo voltaria se ônibus, não sem antes almoçarmos com Laercio, outro ciclista habitante dessa cidade que nos recepcionou e nos levou para saborear um prato feito caseiro já pago pelo primo de Edinaldo.

Almoçamos e a despedida de Edinaldo doeu. Todas doem, sei que é momentâneo, mas confesso que a “facada” é mais funda. Ao vê-lo partir para pegar o ônibus de volta a Goianésia, fica sempre aquela pergunta. Por que exigimos e nos cobramos que momentos felizes se repitam e repitam sem parar? A felicidade não é única, ela pode estar em vários cantos. Cabe a mim, abrir essas portas e sentir se essas pessoas e os encontros fazem ou já fizeram parte de mim um dia.

No momento, sigo pelo Pará. Não enxergo o fim!

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