Fim de Expedição

Deixei de fazer meus posts diários pelo blog, davam muito trabalho, pois tudo foi muito intenso.

De todas as etapas do projeto, nunca havia ficado tão focado em uma quanto essa. Talvez pelo grau de dificuldade que previ e depois senti. Sempre me perguntam qual foi o dia ou trecho mais difícil. Na verdade, tudo foi difícil e cada vez mais tenho certeza que uma das chaves para uma vida boa é saber lidar com os imprevistos. Desses, tive vários. Imprevistos técnicos, de saúde e encontros inusitados que não deixam de ser imprevistos.

Destaco que o segundo e o penúltimo dia foram marcantes. Não imagino porque deveria ser assim, mas conheci pessoas chaves nesses dias que conseguiram acalmar meu coração em um momento muito difícil. Carlos e Ana em Vila Carnot no Amapá; Roberto Borges em Curral Alto no Rio Grande do Sul. Três pessoas formidáveis que abriram seus corações. Carlos e Ana acolheram-me momentos depois do único tombo que tomei no percurso. Estava 45 graus de temperatura quando minha bicicleta escorregou e fui ao chão batendo a coxa e o ombro. Já Roberto, cantou e tocou em um violão, a canção da paz, a canção da minha chegada, no momento em que abriu a porta de sua casa quando a duras custas lutava contra o vento e a falta de comida e banho de uma noite sem dormir.

A expedição acabou, parece que comecei ontem. Impossível não voltar diferente depois de uma experiência dessas. Muita coisa pra pensar e tentar absorver um pouco do que esses dias de estrada me proporcionou.

Chegar ao Chuí foi um marco para o Projeto Giraventura. Em alguns momentos, achei que não conseguiria, confesso que duvidei da minha capacidade em alguns momentos. Aos poucos enquanto evoluía, senti que não era normal. Pessoas normais, previsíveis, preferem levar uma vida normal, com expectativas a curto prazo; nada contra, mas não sou assim. Gosto de me expôr e definir meus próprios critérios morais e de responsabilidade. Isso se chama liberdade. Pedalei pelado na praia, quer mais liberdade do que isso? Absurdo para alguns, não para os loucos. Como diria Os Mutantes: “Dizem que sou louco por pensar assim; se eu sou muito louco por eu ser feliz; mas louco é quem me diz e não é feliz”.

Sensação de missão cumprida nesse ciclo terminado de mais uma jornada do herói. A mistura se sentimentos é enorme e não consigo separá-los. Não espero compreensão das pessoas comigo nesse momento, cada um olha para si, para suas dificuldades, para as suas angústias e seus problemas.

Tenho claro pra mim que a missão do projeto é inspirar. Gostaria de compartilhar mais aprendizados para melhorar a vida de todos e construirmos uma sociedade com mais possibilidades de caminhos.

O caminho não é único e ele está sempre em construção. É fácil falar, difícil viver e absorver esse ensinamento. Diria o famoso poeta espanhol Antônio Machado: “caminante no hay camino, se hace camino al andar”. Talvez a frase mais existencialista que já li, nua, crua, mas verdadeira.

Na volta desse ciclo e dos aprendizados vou me cuidar, respeitar meus sentimentos e tentar viver melhor em um mundo no qual não me pertence e apenas estou de passagem, afinal a estrada me chama em breve.


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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