E a nossa essência?


Hoje vou falar de um momento nesse quadro acima que me foi muito marcante, mas que não escrevo com tanta frequência. O ano era 2018, o desafio, atravessar parte do Meridiano de Paris a partir da cidade de Dunquerque, norte da França. Na pouca conhecida rota que se intitulou posteriormente de "La Méridienne Verte", dois astrônomos franceses do século XVIII caminharam sobre uma linha imaginária com o objetivo de traçar uma arco de 1/4 de circunferência e calculando a distância entre o polo norte e o equador.


A pergunta que certamente você fará seria que cargas d'água estaria eu fazendo lá em 2017 ou qual razão e o que buscava exatamente depois de 5 anos de caminhada religiosa cristã do Projeto Giraventura?


Confesso que sentia que os anos anteriores foram perfeitos e naquele momento entendia que buscava algo mais restrito à minha consciência e tinha a ver comigo, de uma maneira na qual poderia ser mais pleno. Essa virtude, à qual pretendia me desenvolver, possuía uma componente de decisão, de escolha, inteligência e principalmente do uso na minha origem (essência) como molas propulsores desse processo.


A chave desse processo foi quando atravessava a Réserve Naturelle Nationale de Prats-de-Mollo-la-Preste. Adentrei a uma cadeia de montanhas percorrendo a Gorge de Galamus, uma estrada estreita e sinuosa, à beira de um precipício que dava acesso ao meu destino do dia, Saint-Paul-de-Fenouillet.




Percorri a via extasiado como nunca, quando finalmente parei e por ali permaneci. Meus olhos reluziam e lembro que saquei meu bloco de anotações e comecei a escrever sobre aquele momento. Sentia o encontro com os Pirineus como parte de mim e de um processo de construção de algo ligado diretamente à minha essência. Ali, agradecia e refletia sobre a certeza de continuar no caminho da estrada e da reflexão de tudo o que me deixava com mais tesão. Abaixo transcrevo meu bloco de notas naquela ocasião:


"Ela não é só linda e alta, ela é forte e também geniosa. Sua força se traduz no vento que me empurrava para lá e para cá, como quem diz: quem manda aqui sou eu. Numa via bem pequena, na qual os carros se espremem para passar um por vez, o barulho era ensurdecedor. Pedras caiam de cima e eram ancoradas por redes de proteção . Respeito, pedalava longe da beirada, afinal não é sempre que tenho um encontro desses. Sim, fui muito bem recebido, tiramos fotos juntos e vivemos um momento especial que poderá ter continuidade. A vida segue assim, vivo as emoções de um presente recente que já virou passado, mas que já está guardado em minha memória como um catalizador do engrandecimento pessoal. O futuro é só uma previsão. O que esperar dela agora? Não sei! Mais compreensão? Mais carinho? Confesso que às vezes receio que ela coloque suas garras de fora e brinque comigo. Sei que sou apenas um mero homem apaixonado; mas por uma montanha, duvidaria você. Sim e vou ter a humildade de encarar e mostrar o porquê estou aqui. Talvez ela imagine o que esteja buscando, mas também não tenho medo de lhe confessar: sou um simples homem fazendo valer a minha essência e cumprir meu desejo de viver de ti."


França, Saint-Paul-de-Fenouillet, 22 de setembro de 2018.



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