Dia #50: Nordkapp / O Fim do Mundo Norte



Tempo horrível hoje pela manhã, chuva, frio. Fui arrumando minhas coisas assim mesmo, queria chegar à Nordkapp hoje. Logo depois do meu café da manhã, passei em Honningsvåg para pedir informações sobre o ônibus de volta para Alta.


De Honningsvåg, parti para os meus 35 km finais às 12h00. Pensaria você o que são 35 km para quem já pedalou 3560 km? Nada? Entretanto, não é bem assim. Hoje, foi o dia mais complicado por diversos aspectos. Nordkapp, diferentemente do Ushuaia que fica à beira mar, está encrustada em uma montanha e para se chegar até aqui é necessário atravessar não uma, mas uma cadeia de montanhas. Tudo foi muito bem até o quilômetro dez, depois tudo começou a mudar. A chuva parou, isso ajudou, mas a sequência de colinas com vento gelado, horas contra, horas a favor, deixam qualquer um maluco. Protegido do frio sim, mas por um determinado tempo. Aos poucos, o corpo aquecido sua e a roupa que deveria faria a função de me proteger do frio, vira um freezer. A tática é estar pedalando constantemente, mas nem sempre dá, horas por falta de força nas pernas, horas por conta de longas descidas. Literalmente entre a cruz e a espada, mas esse é o preço que se paga para os que sonham estar aqui.


No desafio da primeira colina, parei em frente a um carro estacionado. Dentro dele, três russas ofereceram-me água e me perguntaram se estava bem. É muito difícil responder essa pergunta por que não sei direito o que é estar bem, perde-se a referência. Na minha cabeça, bem ou não, só tinha um desejo, concluir a parte dois da etapa sete de Extremos do Mundo. No quilômetro vinte, foi possível avistar a montanha de Nordkapp e quando a vi, caí em lágrimas.


Demorei quase quatro horas para pedalar 36 km e vencer os 900 metros de altimetria acumulada. Mensagens e mensagens pingavam a cada instante pelo Garmin Inreach, vindas de queridos amigos que torcem pelo sucesso do Projeto Giraventura. Isso motivou-me demais!


As placas de sinalização de Nordkapp apareciam de dez em dez quilômetros, o que só ajudava a aumentar a minha ansiedade.

A nove quilômetros da grande chegada, aparece a penúltima colina com dez por cento de inclinação. Cortando toda a lateral da montanha, enfrentei-a com vento contra. Num certo momento, parei, empurrei porque as pernas não deram mais conta. Fui montar na bike novamente um quilômetro depois, dessa vez para não descer mais.


Carros e motos passavam por mim buzinando e acenando, aplaudindo talvez o grande feito.

A última rampa que leva a Nordkapp, foi demorada, suada e com muitas lágrimas. Cheguei à cabide de pedágio, entrada livre para os guerreiros ciclistas que se desafiam até aqui.


Chegar ao globo de Nordkapp foi um momento de glória. Fincado a poucos metros de um grande precipício, traz todo o charme ao local. “O mundo nas minhas mãos”, assim definiu um amigo, Raphael Guttierres, quando viu minha foto em frente ao monumento dos heróis.

Nem o vento gelado entrando pelas entranhas de meu casaco ensopado, faziam perder a alegria de completar a missão da etapa sete.

Nordkapp é um complexo que inclui um restaurante, um hotel, dois cinemas, uma capela, um museu e uma gift shop. Sentado na cafeteria escrevendo meus textos, fui chamado por um funcionário da gift shop que me disse que queria conversar comigo. Deu-me um pacote e uma carta. Dentro do pacote, um globo miniatura; quanta à carta, uma felicitação pela conquista feita pela Lyssandra Macedo, simplesmente apaixonante.


Depois de todas essas emoções, só me restou uma coisa: não ir embora, ficar por aqui. Mesmo com o vento gelado cortando tudo, resolvi fazer um acampamento selvagem pelas redondezas. Nessa noite, será a grande prova final da barraca contra o vento norte.


Queria agradecer a todos que acompanharam minha expedição e me despedir aqui do alto da colina de Nordkapp. Um abraço especial a Toni Ros, amigo peregrino que foi meu mentor dessa etapa.


Agora, depois de um bom Miojo e um chocolate quente, chegou a hora de relaxar. Descansar os músculos, uma vez que a cabeça já vislumbra a etapa oito em 2020, na Islândia.


Fico por aqui, dentro da barraca, nessa noite gelada e de vento norte, no último ponto alcançável via terrestre de nosso planeta, pois hoje, Nordkapp foi conquistado para entrar para a história do Projeto Giraventura!

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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