Dia #49: Honningsvåg

Atualizado: 12 de Set de 2019


Tive uma excelente noite de sono, dormi bem. Apesar disso, ouvi o vento norte soprar a noite toda batendo as telhas da cabana e me lembrando da sua presença.


O dia amanheceu com o Sol dando boas-vindas na minha janela. Pelo vidro rachado da cabana, entrava um ar gelado, dando-me os primeiros sinais do que iria enfrentar hoje.

Com as pernas já calejadas depois de 3500 km, a distância de sessenta quilômetros que separavam Repvåg de Honningsvåg, virou mero detalhe.


Entretanto, os desafios de hoje eram completamente diferentes de todas as expedições que já fiz pelo Projeto. A roupa correta para suar pouco e não passar frio era essencial para as amplitudes térmicas ocasionadas nas travessias de túneis. Assim, saí com uma segunda pele, uma camiseta, um corta-vento sem mangas e minha capa de chuva, acreditando dessa maneira, que estaria preparado para a etapa.


Deixei o camping por volta das 10h30 pela continuação da linda estrada costeira que estava ontem. Passei praias, montanhas com cachoeiras, onde centenas de albatrozes sobrevoavam em direção ao mar.


Apenas trinta quilômetros de onde encontrava-me, ele me esperava, imponente e misterioso: Norkapp Tunnel, um túnel submarino de 6900 metros de comprimento e 212 metros de profundidade. Metade dele, descida; a outra metade, uma subida com nada menos de oito por cento de inclinação. Há meses venho pensando nessa etapa e no meu pânico que trago desde criança de ficar preso em lugares com poucas opções de saídas, tais como elevadores e labirintos. Desde que comecei a parte dois de Extremos do Mundo em Amsterdam, venho pensado no dia que iria olhar para mim nesse espelho e encarar de frente uma das mais profundas sensações de pânico que tenho.


Visualizando pelo mapa do GPS, o túnel aproximava-se. Faltando quinhentos metros, um curva para a direita, outra para a esquerda e lá estava ele. À minha frente, uma montanha gigantesca, com uma boca, como um monstro adormecido, pronto para me tragar. Parei, olhei, ficando a uns duzentos metros dele, como quem quisesse nada. Fiquei contemplando a sua entrada durante um bom tempo e refletindo qual era o tamanho da minha coragem para me meter dentro dessa situação. Passou de tudo pela minha cabeça, dos trens fantasmas dos parques de diversões, às vezes que menti para amigos tentando esconder meu medo em cavernas.


Então, em poucos minutos, bolei uma estratégia derradeira para enfrentar a situação. Decidi pedalar em sentido contrário ao túnel, por uma faixa de duzentos metros de estrada, dar meia volta, acelerar e adentrar nele. Às 12h10, comecei a retornar sentido Repvåg, como se eu quisesse enganá-lo, fazendo-me de derrotado; às 12h11, dei meia volta, olhei para ele e comecei a acelerar, até ser engolido de vez por aquela boca enorme. Fui então literalmente tragado pela sucção de potentes ventiladores logo na sua entrada, que me levaram para uma descida sombria e muito gelada. Parecendo estar dentro de um freezer e perdendo todas as noções de distância pela falta de sinal do GPS, percorri seus primeiros três quilômetros ladeira abaixo por uma pista molhada pelas goteiras salgadas que caiam do teto. Atingi a sua profundidade máxima em pouco tempo, mas ciente, que nesse momento viria a segunda parte do desafio, talvez pior, a subida de oito por cento de inclinação. Carros, caminhões e ônibus, passavam por mim e o barulho infernal dos veículos e dos ventiladores foram deixando-me maluco. Berrando no primeiro quilômetro de subida, lembrei-me gritando dentro de um elevador quando criança; comecei então a chorar e, como em um filme de terror, implorava para que terminasse logo. Chamei pela minha mãe, pedi ajuda a Deus. Comecei a ficar um pouco mais calmo quando vi uma sinalização de mil metros para a saída. Então, a dor de cabeça foi substituída por um desejo descomunal de uma vitória pessoal; comecei a gritar e o eco dos gritos solitários faziam pulsar minha determinação de me suceder a partir dali. As pernas doíam a cada pedalada a medida que levava todo o meu peso e da carregada bike de volta à vida, à superfície. A poucos metros do final, uma luz, uma claridade grande iluminou meu rosto já coberto de suor e lágrimas. Aproximadamente 25 minutos depois que havia entrado no túnel, saí, parando ao lado de sua outra boca, eu me senti ejaculado. Deixei a bike de lado, sentei na via, coloquei as mãos no rosto e me pus a chorar por longos minutos. Nesse momento, o terror vivido instantes atrás faziam-me pensar que minha cabeça explodiria a qualquer momento.


Continuei a estrada até Honningsvåg em estado caótico. Já sem forças nas pernas, os dezoito quilômetros que me separavam de Honningsvåg, tornaram-se gigantescos. Cansado psicologicamente, não conseguia corresponder a um giro com ritmo constante; pedalava e parava na estrada a todo instante. Estava numa espécie de estado alfa, que me conduziu a uma sequência de mais três túneis antes da cidade. Por eles, passei flutuando. Talvez, o antídoto de Nordkapp Tunnel tenha vacinado-me definitivamente.


Honningsvåg apareceu à frente logo depois. Uma cidade pequena, encrustada entre as montanhas geladas da Noruega. Aqui, é o meu lugar escolhido para descansar para a etapa final de amanhã, Nordkapp.


Passada a tempestade psicológica de hoje, lembrei muito de Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray”, ou seja, da maneira como queremos enxergar o ideal. Nosso lado sombrio anda ao nosso lado e assim como Dorian fazia, nós nos negamos a enxergá-lo de alguma maneira, mas ele aparecerá em algum momento.


Tirar do fundo do meu baú de infância um lado sombrio, trouxe-me a consciência de que encarar desafios fazem-me uma pessoa melhor. Hoje, a etapa dois de Extremos do Mundo fez-me buscar forças de superação onde menos eu poderia imaginar: entre as tripas de um monstro adormecido no fundo do mar. Obrigado, Nordkapp Tunnel.

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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