Dia #48: Repvåg


Acordei 4h30 com o Sol rachando. Bem, o procedimento já é usual, cachecol nos olhos e virar de lado para dormir mais um pouco.


Saí da barraca 7h30, a noite foi tranquila, sem barulhos, somente o som do rio que passava ribanceira abaixo. Feito o café da manhã, vinte minutos depois, o intestino já dá o alerta amarelo. Estava sem muita opção hoje; para me lavar no rio, teria que descer uma colina cheia de mato. Tentei segurar a merda, mas não teve jeito, larguei as coisas no “spot” e desci a colina afobado. Aos poucos, o mato foi ficando alto, não sabia se iria conseguir alcançar o rio, mas no final de aproximadamente uns setenta metros, lá estava eu, pelado como vim ao mundo. Fiquei tão à vontade no local, que decidi cagar de pé e com as pernas abertas, nunca tinha feito isso. É ótimo, não precisa ficar de cócoras; enquanto contemplava a paisagem e conversava comigo, a merda sai, como se nada estivesse acontecendo. Bem, tudo bem finalizado. Papel higiênico, para que? Um bom banho de gato no rio e estou pronto para pedalar de bunda limpa. Preferível passar todo esse perrengue, do que esfregar o cu com resquício de merda em um selim Brooks de trezentos Euros!


Por falar em fedor, ontem, já dentro da barraca, quando tirei minha calça segunda pele de dentro do saco estanque, quase vomitei. Cheirava cachorro molhado; acho que ela não secou direito depois da última chuva. Infelizmente, tive que vesti-la para dormir, não teve jeito. Essas viagens mais longas geram cheiros pitorescos. Lembro que na etapa cinco, Via Francigena, minhas mãos cheiravam chulé quando cheguei à Roma. Nessa viagem aqui, tem uma mistura azeda de cachorro molhado com toques de chulé. Paciência, faz parte dos nossos aromas naturais que escondemos o tempo todo usando esse lixo químico de sabonetes, desodorantes e perfumes.


Bem, saí do “spot” às 10h30 em direção leste à Olderfjord. Subidas e descidas e a paisagem parecia a mesma de ontem. Pedalei 21 quilômetros e parei para tomar café em um restaurante, tão logo cheguei à vila, fazia muito frio. Dei um tempinho na cafeteria, antes de partir definitivamente a Repvåg. Felizmente, o vento estava norte, mudou hoje, tive muita sorte.


A partir daqui a estrada também mudou completamente e virou uma via costeira com cenários deslumbrantes.


Hoje, passei pelo meu primeiro teste de túneis, antes do fantasmagórico Nordkapp Tunnel, já amanhã em direção à Honningsvåg. O primeiro tinha 2800 metros de comprimento. Entrei nele e parece que havia entrado em um freezer. Do lado de fora, treze graus; dentro, oito. Confesso que fico aflito em túneis, não curto lugares com poucas opções de saída. Atravessei mais dois logo depois, esses menores, oitocentos e duzentos metros. Muito bem, um aperitivo para amanhã.


Alcancei Repvåg, quando meu odômetro marcava 69 quilômetros. Devo ter pedalado um pouco mais, pois o GPS não funciona em túneis.


Fui direto ao único camping até havia na vila. Tão logo cheguei, o aviso: não aceitamos barracas. Pensei em fazer um camping selvagem, mas desisti por dois motivos: cheguei cedo e precisava de um banho. Se decidisse fazer selvagem, teria que montar imediatamente a barraca e já me enrolar no saco de dormir. Repvåg é aberta, faz muito frio e venta demasiado. Recordo do ruído do vento na Patagônia. É aquele ruído que não dá paz e fica o tempo todo no ouvido. Lembro que na Patagônia, tinha medo de abrir a porta quando acordava. O vento por aqui não é tão forte como o de lá, em torno de seis metros por segundo, mas tão gelado quanto.


Aluguei uma pequena cabana para passar a noite. É tranquila, toda de madeira, bem simples; não há ninguém no camping.


Amanhã, talvez, seja o dia mais desafiador por conta do túnel, uma vez que os setenta quilômetros que me separam de Honningsvåg não serão tão difíceis.


Estou perto do fim da etapa sete do Projeto Giraventura. Nordkapp finaliza o segundo ano de fase científica do projeto. É muito emocionante chegar até aqui.


Que os ventos de amanhã sejam norte e que Honningsvåg acolha-me bem para a última etapa dessa grande expedição de 3800 km ao topo do mundo.

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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