Dia #47: Skaidi / Camping Selvagem


Foi muito emocionante sair de Alta hoje. À princípio, posterguei para partir, fiquei um tempão sentado, olhando o mapa e custando a acreditar o quão longe estou.


Quando comecei a jornada em Amsterdam, tinha um objetivo sim, mas é difícil imaginá-lo no presente que se vive; nunca pensei em quilometragem, ou quantos dias ficaria na estrada, apenas fui pedalando apontando norte. O meu planejamento construído meses antes no Brasil, apenas serviu como guia. Acabei construindo uma jornada, dia após dia e como diria Joseph Campbell: “Um sonho é a visão criativa de nossa vida no futuro. O objetivo é o que se pretende fazer acontecer. Sonhos e objetivos devem estar fora do nosso cotidiano, mas nunca fora do nosso alcance de visão. Sonhos e objetivos são vindos atrativos em nossas vidas”. É como se fosse miragem a sua frente que aos poucos toma forma.

Hoje, estou perto de Skaidi, um lugarejo norueguês, a 92 km de Alta. A estrada mudou completamente e parece que entrei num deserto regado por rios e montanhas distantes, onde renas selvagens são personagens desse filme. As poucas casas que vejo sob montanhas, fazem-me pensar como seria a vida por aqui durante o inverno. Às vezes, custo a acreditar que tudo o que se passa diante dos meus olhos é real.


Estou muito cansado, optei por fazer um camping selvagem, eu queria me isolar um pouco. Procurei incansavelmente por um “spot”, entrei em estradas de terra, beiras de rios, mas nada me confortou e deu segurança. Já em Skaidi, parei em um posto de gasolina, onde havia um mercado. Desci para tomar um café, fazia frio; conversei longamente com duas norueguesas que pedalavam destino à Hammerfest. A impressão que tenho é que a Noruega não é outro país, é outro mundo, parece que à parte do resto. Pensei que se o planeta fosse destruído, a Noruega continuaria de pé, tamanha sua funcionalidade e independência.


Seduzido pelo camping selvagem, fui atrás de água, queria encher minhas garrafas, preparar-me para a noite gelada. Nesse momento, uma alemã veio espontaneamente conversar comigo, ajudou-me com a água. Do nada, falou-me que as pessoas são amáveis e querem ajudar se você tem um coração aberto; parece que queria ficar mais tempo comigo no bate-papo, mas partiu em seu trailer minutos depois. Aqui, relações e paixões são instantâneas, momentâneas, não há espaço para apego.


Voltei à estrada para procurar “spots”, avistei uma placa e um recuo na mata. Fui adentrando e senti segurança, meu descanso seria aqui. Estou em uma parte mais baixa da estrada, aqui ninguém consegue me ver. Morro abaixo, consigo escutar a correnteza do Rio Skaidielva quebrando entre as pedras. Acabei de preparar minha janta e agora estou dentro da barraca; faz cinco graus. Do lado de fora, ouço ruídos de todos os tipos; não faço a mínima ideia do que são.


Estou cansado fisicamente, minhas pernas doem. Hoje, esticar o corpo dentro de um colchonete é a melhor coisa que tem.

Estar aqui na Noruega é especial. Estou a 150 km do fim da etapa sete do Projeto Extremos do Mundo. Minha cabeça parece até vai explodir de tanto pensar. Não consigo descrever as emoções, sei que elas estão vindo para fora, aos poucos. Hoje, atravessei dez quilômetros de montanha chorando. Chorava como uma criança querendo o colo da mãe, talvez até pela falta que a minha me faz. Lembro dela o tempo todo, do seu colo, do seu cafuné.


Quero dedicar a minha chegada a Nordkapp a meus pais que me botaram nesse mundo. Não sei onde eles estão agora, mas sinto que me vêem.


Ouço uma voz dentro de mim que me impulsiona nesses quilômetros finais. Ela me diz: Nordkapp está logo aí, é sua, realize!

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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