Dia #43: Kautokeino / Noruega

Atualizado: 12 de Set de 2019



Assim que comecei Extremos do Mundo, parte dois, as pessoas perguntavam-me qual seria o meu destino final. Ficavam chocados quando dizia que era Nordkapp. Hoje, quando falo que estou indo à Nordkapp, cara de paisagem, ninguém fala nada. Entretanto, o espanto inverte-se quando digo que parti de Amsterdam há mais de um mês. É curioso a expectativa que os outros geram sobre algo não habitual e que se diga, não habitual até aos padrões europeus. Primeiro porque sou brasileiro, logo, a primeira pergunta é: o que um cidadão desse país faz pedalando por essas bandas? Sentiu um certo atrevimento no ar? Pois é, vou contar o porquê: Nordkapp é um dos destinos prediletos sim, mas dos motociclistas europeus. Dezenas deles ultrapassam-me diariamente sentido ao topo do mundo. Dessa maneira, concluí que chegar à Nordkapp de bike é mais raro. Agora, chegar ao Ushuaia e à Nordkapp no mesmo solstício, vivendo dois verões consecutivos, talvez seja algo raríssimo. Por favor, ajude-me a encontrar alguém que já fez essas trajetórias consecutivamente?


Desculpe-me ter alongado-me na introdução. Na verdade, não posso comemorar, pois ainda não cheguei ao meu destino final, mas depois de hoje, tenho certeza que vale uma comemoração. Estou na Noruega, nem eu acredito. Meu Deus, que loucura chegar até aqui de bike.


Saí de Enontekiö embaixo de chuva, não de garoa, chuva mesmo, chuva gelada de verão escandinavo. Sair da cama hoje, quentinha e seca, colocar a minha capa e ir para debaixo da chuva montar meu equipamento foi um desafio. Nessas horas, os conselhos vem aos montes: perca mais um dia por aí, espere a chuva aliviar para partir e blá, blá.


Então, o que acontece é que nem em previsão do tempo dá para confiar; no Windy™️, dizia que nem chovendo hoje deveria estar? Então, viver o problema de frente e arrumar as melhores soluções dentro dele é uma opção para mim, vamos lá! Se está chovendo, está frio e a estrada é perigosa, vou fazer de tudo para que minha vida torne-se mais “suave”, como diria o Gui, meu filhão querido de 19 anos. Assim, entendo que fugir do problema, só aflige e posterga o suposto sofrimento.

Então, depois do café da manhã, minha estratégia foi primeiramente completar o tanque de combustível. Então, antes de pegar estrada, saí todo encapado direto ao mercado principal. Lá, comprei dois folhados com queijo e presunto e um achocolatado proteico para o quilômetro quarenta. Para partir, comi um donets de chocolate e tomei um refrigerante de cafeina. Segui viagem.

A rodovia 93, que me levaria a Alta, começa a poucos quilômetros do mercado onde estava. São 240 km de uma rodovia bem movimentada de mão dupla, mas com asfalto impecável. Meu objetivo do dia? Pedalar oitenta quilômetros até a primeira cidade da Noruega, Kautokeino, que nome?


Passei 36 km dessa rodovia ainda percorrendo a Finlândia, até chegar à divisa entre os dois países. Nada de especial, apenas um trecho em obras bem na fronteira. A paisagem e o relevo mudaram completamente, assim que entrei na Noruega. Uma sequência de tobogãs complementados com muito verde e muitos rios e lagos completavam o novo cenário.

A chuva aliviou alguns quilômetros depois e decidi parar em uma das áreas de escape da estrada para tirar minha capa e calça de chuva. Pedalei mais dez quilômetros e a chuva volta forte, dessa vez, sem trégua. Parei novamente e coloquei apenas a minha capa de chuva para me proteger do frio; deixei a calça de chuva de lado. Para que calça de chuva se a minha calça de ciclismo já estava encharcada? Estava no quilômetro sessenta, restavam-me ainda vinte quilômetros até Kautokeino. Já bem desgastado, pedi um camping ao GPS, que me informou um, por volta de dez quilômetros antes de Kautokeino. Meus pés e as mais geladas não faziam mais diferença, foquei mentalmente nesse camping.


O camping apareceu no quilômetro setenta, completamente vazio. Fui à recepção, um chalé quentinho bem ao lado da estrada. Branco e tremendo da cabeça aos pés, uma senhora muito simpática recebeu-me, ofereceu-me café, pediu para sentar e perguntou-me se queria que chamasse o resgate. Ri e disse a ela que tinha barraca, mas o que queria mesmo era um teto, um banho quente e um lugar para que pudesse secar as minhas roupas. Arrumou-me um alojamento simples.


Cheguei ao alojamento e imediatamente procurei por roupas secas nos sacos estanques; ledo engano, tudo molhado, entrou água pelas laterais deles. Saco de dormir, segunda pele, poucas coisas se salvaram da tempestade. Com o que me restou, fui ao banho quente, enxugando-me com papel toalha, uma vez que minha toalha também não se salvou da chuvarada.


A dona emprestou-me dois aquecedores de ambiente e contando com a ajuda da grelha de uma geladeira, comecei a secar toda a minha roupa.


A chuva parou, virou garoa e deu tempo de ir a uma linda praia atrás do camping onde passa um rio. Foram dez minutos de contemplação com algumas fotos, antes de ser expulso pelos seus proprietários, os pernilongos. Depois disso, jantei e deitei.


Sempre falo que o dia que acabei de viver foi mais difícil. Não vou mais falar isso. Não há dias difíceis, nós quem criamos as dificuldades e não a aceitamos quando ela aparece. Talvez você chame-me de maluco se eu lhe contar que hoje foi um dos dias mais incríveis da minha vida? Será que sou masoquista? Não sou não, sou apenas alguém atrás de soluções mirabolantes para problemas ditos como impossíveis.

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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