Dia #42: Enontekiö


Às 2h30, acordei ouvindo gotas de chuva sob a barraca. Com o dia claro, levantei e fui recolher minha roupa que havia deixado para secar sob a bike. Fazia muito frio essa hora, mas voltei e entrei rapidamente no saco de dormir. Uma hora depois, veio a tempestade. Acordei de novo e por essa eu não esperava. Choveu a noite toda e felizmente minha barraca aguentou bem.


A chuva parou às 6h00 e com um céu nublado e um frio de cinco graus. Acordei com enjoado, olhei para o que tinha de café da manhã, juro, tive ânsia. Fui à recepção do camping, tomei um café quentinho e dei um tempo lá. Voltei para a barraca, comi o resto do pão com geleia e queijo que sobrou e fiz mais dois só com geleia para a etapa do dia de hoje. Já passou da hora de ir só mercado, mas não me empolguei. Arrumei minhas coisas, sequei e desmontei a barraca e parti rumo norte novamente.


Pedalei os mesmos quatorze quilômetros de ontem até a bifurcação que iria levar-me para a rodovia 93 com destino a Alta, na Noruega. Como não posso pedalar na rodovia principal, a 21, meu percurso de hoje daria a maior volta, passando pelo Parque Nacional de Pallas-Yllästunturi. Logo no começo vi algumas pessoas andando pelo parque, depois não vi mais ninguém. Totalmente inóspito, nem as renas queriam estar por aqui. Assim foram quilômetros e quilômetros de um cenário impressionista. Pedalava e parecia que, ao mesmo tempo, admirava um quadro de Monet, tamanha a mistura de cores que se apresentavam à minha frente. Às vezes, parava, contemplava o cenário, tentava sacar uma foto, mas quando olhava no visor da câmara, ele era diferente do que estava vendo. Comecei a pirar com essa ideia e refletir que não conseguiria nunca retratar meu presente na câmara. Uma vez tirada a foto, essa já era passado e o passado, por si, não existe, porque já passou. Então se não existe passado, o presente também não existe porque quando eu olho para ele, também já passou. Não existe passado, nem presente, nem futuro (ainda não chegou). Concluí que o que vale é percepção do que acontece a meu redor, independente de tempo e registros. O que vale é o que sinto.


Depois de ficar uns bons minutos parado no meio da estrada refletindo esse tema, senti algo estranho cutucando meu rosto. Olhei para o topo da montanha à minha esquerda com o cume branco; veio a neve, leve, tímida, como quem dizendo para eu continuar meu caminho, para não ficar ali: “siga a vida!”. Nesse momento, não aguentei e desabei. Foi uma longa descida, com as lágrimas dos olhos congelando e à medida que aumentava a velocidade, minha sensação de miudeza veio à tona, perto de tamanha onipotência ao meu redor. Foi uma jornada muito dura, psicologicamente e fisicamente, talvez a mais até aqui; um grande desafio para mim.


Já desgastado e sem camping selvagem, resolvi seguir para vila de Enontekiö, onde certamente encontraria um camping. Já com 105 km no meu odômetro, o corpo desgastado pelo esforço demasiado e alimentação precária pedia para parar. Ainda assim, sentia algo vivo em mim, não queria chegar à vila.

Seriam mais dez quilômetros até Enontekiö. Antes, avistei a placa de uma hospedaria kåta. Sempre quis dormir numa kåta, desde que a conheci há alguns dias na Suécia. Entrei na região da hospedaria onde não havia uma, mas várias kåtas de todos os tamanhos.

Ainda com os olhos inchados, a pessoa que me recebeu apresentou-me uma kåta, onde havia diversos dormitórios, uns maiores, outros menores. Instalei-me em um, com uma cama e um abajur. Tomei um banho, voltei ao quarto, deitei para ouvir silêncio, para ouvir o que vinha de dentro de mim.


Lembrei que na “Odisseia de Homero”, Ulisses dá-se conta do seu lugar, depois de quase morrer na Guerra de Tróia e ser vorazmente seduzido por Calipso. No final, Ulisses volta aos braços da sua amada. E o que isso tem a ver? Na verdade, há um jeito certo para se viver, coerente, que não nos agride, que tem a ver com a nossa personalidade, com as nossos talentos e dons naturais. Descobrir esse jeito faz parte da nossa missão pela busca da felicidade. Talvez tenha tido a máxima consciência da minha.


Hoje, na minha última noite na Finlândia, estou muito feliz de estar em paz comigo mesmo e me sentindo preparado para encarar meu último desafio, umas poucas dezenas de quilômetros daqui, a Noruega.

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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