Dia #38: Pello / Finlândia


Acordei afobado pela manhã, parece que queria sair logo, mas o tempo não deixava. Fazia frio, oito graus e chovia.


Esperei a chuva parar, coloquei minhas capas, respirei fundo e parti para a minha última jornada de 63 km pela Suécia. Não foi fácil, o corpo pesava e tão logo entrei na estrada, veio a chuva. Forte, fria e fina, ela batia no meu rosto como agulhas tentando perfurar minha pele. Procurava baixar a cabeça para a viseira do capacete aliviar a dor vendo poças de água brancas deixadas pelos enormes caminhões de carregamento de toras de madeira que passavam jogando seu spray.


Sabia desde o começo da expedição que a luta diária seria comigo mesmo. Entrei nessa jornada consciente das dificuldades e certo de que em algum momento seria cobrado por isso, mas entendi que tudo é uma questão de adaptação ao meio. Como diria Heráclito, tudo flui, nada permanece: “não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”, já que nem o rio nem quem nele se banha são os mesmos em dois momentos diferentes da existência. É incrível, mas mudei diversas vezes para chegar até aqui. A estrada que parecia única, mostrou-me diversas faces e a elas fui me adaptando, existindo diversos Nestores, como os melancólicos, os saudosistas, os apaixonados, os raivosos, entre muitos outros. É cansativo psicologicamente mudar assim. As emoções vem à tona como brotoejas, de uma só vez, sem avisar.


A chuva cessou no quilômetro 34, quando alcancei o Círculo Polar Ártico. Bem na divisa, um marco, uma placa, com a inscrição da latitude 66°33’. Havia um banco, algumas mesas; um homem chegou a mim, perguntou-me gentilmente se eu gostaria que ele sacasse uma foto minha. Agradeci e recusei; queria ficar só. Fiquei longos minutos olhando para a placa e com o rosto bem abatido, tirei uma foto minha usando o tripé, hasteando a bandeira do Brasil. Tenho orgulho de ser brasileiro, de ter sido criado s educado por pais que nasceram no Brasil. A bandeira representava não somente a minha origem e a minha raça, mas a força de todos os que me apoiam para chegar até aqui. Essa gente motoca -me a continuar.


Deixei o marco, parti e comecei a controlar a quilometragem à medida que o final da estrada 99 aproximava-se. Ao meu lado direito, era possível avistar casas com pequenos barcos de pesca na margem finlandesa do Rio Tornio. Senti que a Finlândia esperava por mim. Como uma borboleta tentando liberar as asas para sair do seu casulo, fui encorajado pela raio de sol que surgiu às minhas costas, projetando minha sombra à frente e me empurrando definitivamente para os dez quilômetros finais.


Assim, alcancei a último povoado sueco, também com nome de Pello. Parei no mercado e realizei minha última compra com as duzentas coroas suecas que me restaram.


Voltei à bike, agora, bastava cruzar o rio Tornio. Seriam cem metros de ponte ligando os dois países, nada mais. Cheguei à ponte, olhei para frente e avistei a placa Finlândia a cem metros. Dei minha última olhada para trás e falei: obrigado Suécia, adeus Suécia!


Atravessei o Rio Tornio e peguei sentido sul à vila de Pello, cheguei à Finlândia.


No começo da expedição, a Finlândia parecia-me algo muito longínquo, até mais do que a própria Noruega. Hoje, eu estava nela e aquela distância que sempre imaginei, evaporou.


Vi um motel à beira da estrada onde estavam parados alguns caminhões. Esgotado e com o corpo doendo, dei-me ao luxo de pedir um quarto para passar duas noites. Numa modesta habitação de poucos metros quadrados, subi minhas coisas, tomei um banho, estiquei minhas pernas. O corpo pediu-me esse tempo e assim eu o atendi.


Vivemos uma nova fase em seguida da outra. Como fazemos muitas coisas no automático, às vezes, não nos damos conta disso. Viver esses dias por aqui é saber que esses momentos existem. Atravessar o Círculo Polar Ártico foi um grande momento, mas valorizar pequenos momentos, como o de uma criança loirinha de olhos azuis que me acenou ao me ver passar na estrada, engrandece-me e me trás face a face o que a vida deposita diariamente em meu copo e que, infelizmente, muitas vezes a rotina me esconde. #rentafinn

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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