Dia #37: Övertorneå


Foram vinte dias de Suécia e hoje é dia de despedida.


Quando entrei na Suécia por Helsingborg, não fazia a mínima ideia do que encontraria pela frente.


Primeiramente, fui saudado por enormes campos de trigo com suas dezenas, centenas de rolos, às vezes expostos, às vezes lacrados em densos plásticos brancos.


A natureza exuberante, em excesso para um país onde a população é menor que a da cidade de São Paulo, mostrou-me sua cara logo nos primeiros dias, através das enormes florestas de pinheiros cortadas por diversas estradas ligando a todos os pontos do país. As modernas estradas que me surpreenderam, pois de tão modernas, poderiam ser até de terra e rípio, aguardando calmamente uma perfeita pavimentação posterior. Nessas vias, fui saudado por dezenas de tratores e caminhões com gigantescos carregamentos de toras de madeira para um estoque desse combustível em um inverno rigoroso dentro de alguns meses.


Lagoas e rios de degelo espalhadas por todos os cantos do país, deram-me seu ar de graça no primeiro acampamento selvagem, infestado de mosquitos e pernilongos, que tive à beira do lago Skärsjösjön, próximo à Aneby.


Tive diversos companheiros nessa fase, corvos com seu pio pitoresco e pequenos pássaros que voavam de uma maneira atípica, levantando vôo e dando rasantes à medida que eu me aproximava deles, como que esperando a minha passagem para abrir meu caminho.


Os mercados Coop e ICA marcaram para mim. Suas prateleiras super organizadas, com separação por cores, faziam de um mero forasteiro tupiniquim, um bom consultor de localização de produtos e um bom entendedor de produtos orgânicos.


As casas? Algumas modernistas, mas a maioria mantendo a tradição, de madeira, pintadas na cor marrom e com janelas brancas espalhadas por todos lugares, campos, montanhas e vilas.


O idioma? Esquisitíssimo! Letras com trema, palavras impronunciáveis para mim. Os suecos sabem disso, e tudo bem. Nada que uma boa comunicação em inglês não resolva. Ah, esse povo. O orgulho de ser sueco é nítido nas bandeiras fincadas por todos os lugares, em casas, monumentos ou em simples caixas de correios. Uma gente da paz, não querem briga, guerra. Um dia um sueco me disse assim: “Daí a Noruega não queria ser mais Suécia e quis virar Noruega! Os suecos falaram: ok, virem!”.


Um dia falaram-me da frieza dos suecos, do incentivo estatal do individualismo como princípio ético. Deles, senti a sede de colaboração e de agradecimento por um simples: “thank you, you become part of my dream to Nordkapp!”. Não há quem tire o brilho nos olhos quando faço o tradicional agradecimento ensinado pelo meu pai. Sim, são suecos, são individualistas como teoriza Erik Gandini, mas são gente e desculpe, Gandini, gente tem sentimento.


Estou de partida, com olhos cheios de lágrimas, mas certo que deixei para trás não um país, mas um reino de sonhos que marcaram a trajetória da parte dois dessa etapa.


Estou indo para outro país, já dentro do Círculo Polar Ártico, marcante para essa expedição; outro dinheiro, outro fuso horário, outra gente, mas ficará por aqui na Suécia, o sentimento de quem um dia sonhou em pedalar por esses lados e o realizou com a mais profunda entrega e de coração aberto uma linda jornada por essa terra.


Obrigado por tudo Suécia, um dia você também fez parte do meu caminho!

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Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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