Dia #36: Morjärv


Nem os 120 km que separavam meu camping de Morjärv, penúltima vila antes da Finlândia, iriam me parar hoje, ainda mais depois da lavada de alma que tive ontem na floresta.


Em uma noite toda clara, abri a barraca às 7h30 com um frio de oito graus para dar bom dia ao Sol que, mais preguiçoso do que eu, custava a acordar atrás das nuvens baixas do meu horizonte leste.


Ao som de “A Forest”, The Cure, fui arrumando minhas coisas e aproveitei para tomar um banho quente, o que não tinha feito ontem. Depois, dirigi-me à recepção para acertar as 150 coroas pelo dia.


Antes da partida, um pedaço de papel e um recado a um casal muito simpático em um trailer estacionado a poucos metros do meu “spot”: “My father taught me to be thankful for all people who cross my way! So thank you very much for out chat!”.


Parti rumo a Boden, cidade à 42 km de mim. Gastei todos os suprimentos que tinha, pois sabia da facilidade de mercados em cidades como essa.


A rota foi bem tranquila, praticamente plana, pedalando nove quilômetros pela rodovia 94 que leva ao litoral e às autoestradas, antes de entrar no começo da rodovia 356.


Boden apareceu duas horas depois com um lindo céu azul dando-me boas vindas. Parado em uma esquina, com um ar de forasteiro, eis que se aproximam duas senhoras com seus cachorros. Disseram-me: “sei que você não é daqui, o que procura? Um camping?” Conversa vai, conversa vem, falei que era brasileiro e tinha começado a rota em Amsterdam rumo a Nordkapp. De olhos arregalados, uma virou para outra brincando e me disse: “deixa eu tocar nas suas pernas, vai?”.


Logo em seguida, parti rumo ao mercado. A compra foi rápida, dois achocolatados, um pão tipo sonho de uns cinquenta centímetros, um MM e um Red Bul; acreditei que com isso teria energia suficiente para encarar o restante dos 78 km até a vila de Mörjarv, onde supostamente, existiria um camping. De estômago cheio, parti pela 356!

O trecho foi tranquilo nos primeiros cinquenta quilômetros, passando por inúmeras lagoas com diversos “spots” para camping selvagem. Os suecos montam uma espécie de cabine em frente a esses lagos, onde se colocam cadeiras, mesas e um espaço para fogueira ao centro; algum deles possuem toaletes também. Chegar aqui, montar a barraca e passar a noite admirando o lago e ouvindo o som da natureza é mais do que seguro. Aliás, nunca tive tamanha sensação de segurança. Os próprios suecos dizem que existem ladrões, que devo sempre acorrentar a bike e tomar conta das minhas coisas. Mesmo com esses cuidados, isso daqui para um brasileiro é um paraíso, um sonho Escandinavo de segurança física muito além dos outros países europeus.


Estou ficando craque em prever meus horários de chegada. Dessa vez, tinha programando às 19h30, o que é tarde, pois a recepção dos campings fecham geralmente às 18h00.


Os trinta quilômetros finais foram muito sofridos com montanhas e subidas íngremes. Praticamente, todos os 760 metros de altimetria foram conquistados aqui, nesse final. Para compensar, cruzava lindas lagoas, rodeadas de casas.


Com as já pernas gritando e depois de oito horas de estrada, finalmente cheguei à vila de Morjärv. Daqui para o camping seriam mais dois quilômetros.


Cheguei a um camping vazio, ninguém, nem traileres, nem barracas, nem recepção. Vi uma mulher saindo de uma casa e fui pedir informação: falou para ir até uma casa branca a poucos metros. Toquei na tal casa branca, nada! Vi outra pessoa passando e a abordei. Também disse que o responsável deveria estar aí, mas não sabia dele. O tempo foi passando e a temperatura caindo. Prestes a instalar a minha barraca em qualquer canto, eis que surge um ser bem esquisito. Baixinho, cabelos acinzentados, meio sujo, mais do que eu até, apareceu a mim gritando pela janela da casa branca. Desceu, abordou-me e me perguntou se estava só. Ofereceu-me o camping, uma cabana ou um aposento na parte de baixo da casa dele. Entrei no aposento, vi banheiro, pia, cama de casal e disse a mim: estou num hotel cinco estrelas por trezentas coroas suecas? É isso?


Muito simpático, Lass, seu nome, convidou-me para tomar uma cerveja com ele. Eloquente, contou-me várias histórias sobre a cultura sueca e suas andanças em temperaturas de menos quarenta graus.


Hoje, tive uma sensação de alívio tão grande ao tomar um banho e deitar. Não queria fazer mais nada, além de um pequeno jantar. O corpo pedia para deitar, a cabeça pedia descanso e assim fui dormir em uma cama de casal com dois edredons às 22h00.

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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