Dia #35: Älvsbyn


Tem dias até não estou bem. Dormi muito bem à noite, descansei, acordei com uma preguiça louca, mas não me sentia tão bem. Fisicamente de acordo, mas há muitas variáveis nesse contexto, sabe, não conseguia identificar o que me perturbava. Entendi que meu café da manhã não tivera sido tão bom, estava com poucos suprimentos; isso geralmente influencia diretamente no meu rendimento físico e psicológico, entretanto, virei-me com o que tinha e parti às 11h00 novamente em direção ao Norte.


Notava o sol projetando minha sombra à frente e me sentia assistindo a um filme de uma realidade passada às minhas costas. Nesse momento, essa pequena alusão à Platão, fazia-me sentir acorrentado, como um escravo sem noção da dualidade desse mundo e preso a uma dor, a um mal estar não identificado, nada mais que um simples espectador.


Dividi o dia de hoje em dois, um trecho de 43 km até Lillpite com pausa para almoço e outro final até Älvsbyn, onde supostamente haveria um camping. Os primeiros dez quilômetros foram sofridos como sempre para o aquecimento, mas a medida que as pernas aqueciam, o mal estar permanecia.

Ao final de 43 km encontrei a primeira um mercado, reabasteci e dei um tempo em umas cadeiras em frente. Sempre achando que o problema pode é mais físico, resolvi almoçar, comi bem, dois pedaços de coxa de frango frios que peguei na geladeira do mercado, um iogurte e um energético com cafeina. Parti para os últimos 55 km.


Sentia-me travado, enjoado e adentrei à uma estrada completamente inóspita. Não havia casas, gente, sequer pássaros; era eu, a bicicleta e uma imensa floresta de pinheiros silenciosa e sem vento. Recordei que tive uma sensação parecida no ano passado enquanto cruzava os Pirineus Franceses pelo Meridiano de Paris. A partir de um certo momento, a floresta toma conta da situação e passa a controlar meus impulsos; aos poucos isso aumenta exponencialmente até me sentir livre a ponto de poder colocar para fora meus desgostos e minhas angústias. As dificuldades, como falta de água, calor e rípio, dão-me boas vindas para também fazer parte dessa macabra dança da liberdade e me fazendo enlouquecer. É como um tsunami de pensamentos, de desejos, de frustrações, tudo ao mesmo tempo. A medida que meu pensamento não tem capacidade para organizar as ideias, vem o choro e o grito enlouquecedor. Paro, escuto a floresta; sim ela está calma, mas tem uma voz, bem baixinha, como um cochicho, como alguém dizendo-me: continue em paz!


Pedalando bem lento, fui incorporando essa paz e os pensamentos negativos foram dissolvendo-se. Fui acalmando-me, conversando com ela e pedindo passagem para os mil quilômetros finais até Nordkapp. Como um mantra, repetia que queria chegar ao fim do mundo e sentir que o sonho de estar no ponto norte mais longínquo desse planeta não era só um desafio para mim, fazia parte da minha essência. Não queria provar a ninguém o que posso ou sou capaz, mas sim, realizar um sonho que um dia concebi. Foi nesse momento que o rípio se vai e o entardecer brilha sobre a lagoa pedindo um lindo registro dessa passagem e desse momento; estou bem novamente para os últimos vinte quilômetros.

Cheguei perturbado ao local do acampamento, sem entender muita coisa e observando o vai e vem frenético das pessoas ao meu redor. Procurei um lugar distante, isolado e montei minha barraca.


Hoje, dia 6 de agosto, seria aniversário de Andy Warhol, se estivesse vivo, diria assim: “Eles sempre dizem que o tempo muda as coisas, mas na verdade você tem que mudá-las você mesmo.” Já, eu diria a ele: Andy, eles também sempre querem me fazer desistir, mas na verdade, eu sou o agente do meu tempo e dos meus sonhos, então, digo a eles que vou continuar!


AssiSra o vídeo no YouTube: https://youtu.be/UiTDv0ogXCE

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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