Dia #33: Burträsk


Hoje foi muito difícil sair da cama. O quarto estava quentinho e um frio de dez graus do lado de fora. Dei um tempo, desci para tomar café da manhã, voltei e calmamente comecei a ajeitar minhas coisas. Saí no horário limite, 12h00; antes rezei, pedi proteção para minha mãe para a quinta fase; parti sem destino fixo, parti norte. Planejei rodar uma média de 95 km diários nos próximos seis dias para alcançar a Finlândia.


Demorou para o meu corpo esquentar, mas depois de dez quilômetros rodados, tudo melhorou. Saindo de Umeå, só peguei estradão. Estradas sem fim, sem povoados, só rodeadas de pinheiros. Desenvolvia muito bem, minhas pernas correspondiam ao ritmo e conclui que essas duas noites em um hotel em Umeå foram essenciais para minha recuperação, depois de pedalar oito dias consecutivos. Não queria parar, pedalava como um motor, fiz meus lanches pedalando e a única vez que parei para urinar, foi suficiente para o vento norte dar suas boas vindas congelantes. Assim foi a história da jornada por 62 km, quando a temperatura, de repente, caiu muito. Nesse instante, avistei um quiosque de café em um vilarejo que havia acabado de entrar. “A nice kiosk in the middle of nowhere”, eu me referi ao local para a dona do estabelecimento, tão logo entrei. Foi o suficiente para quebrar o gelo e conversarmos a respeito de sonhos, realizações, frustrações. Perguntou-me aonde ia e a minha resposta foi: norte. “Não tenho lugar fixo para dormir hoje, mas gostaria de parar de pedalar daqui uns trinta quilômetros. Foi então que ela mostrou-me no mapa um vilarejo chamado Burträsk; nome estranho? Parece palavrão. O tal vilarejo ficava a 30 km de onde estávamos, ou seja, cumpriria, na mosca, a os meus 95 km planejamos. Empolguei-me mais ainda quando ela falou-me à respeito de um camping nessa redondeza. Entretanto, nem tudo é só notícia boa; havia uma estrada de terra para ser atravessada, uma estrada em reforma. Virou a mim e disse: “You can, just follow the car’s track!”.


Já quente depois do café, parti rumo a Burträsk, achando que tudo seria simples. Na estrada que estava, uma placa indicava o vilarejo à esquerda, a 31 km. Pedalei 11 km em uma excelente estrada de asfalto até o lindo povoado de Bygdsiljum. Parei para tirar algumas fotos e reparei que a estrada de terra começaria justamente a partir dali. Comecei a percorrê-la e os primeiros quilômetros foram tranquilos. Depois do quilômetro dez, a estrada lembrou-me a rota de Tapi Aike na Argentina em janeiro desse ano. Rípio, rípio da pior qualidade. Preocupado que tamanho das pedras afiadas pudessem danificar meus pneus, comecei a andar em zig-zig, procurando sempre áreas mais limpas. Nisso, passaram por mim, em sentido contrário, dois ciclistas em uma tandem. Desesperados, gritaram para mim, falta muito para acabar isso? Fiz apenas um sinal de positivo, não parei e continuei meu martírio solitário. Batia muito, não conseguia desenvolver, doía tudo, ombro, joelhos, costas, bunda. Foram vinte quilômetros nesse ritmo até finalmente encontrar o asfalto no vilarejo de Burträsk.

Fui direto ao camping em estado caótico. Dor de cabeça e dor de tudo. O camping é gigantesco, fui bem recebido pelo dono que me informou para montar a barraca afastada dos quiosques, uma vez até estava tendo uma festa de casamento. Nem dei muita importância, apenas queria um banho quente, comer algo, montar minha barraca e dormir.


No banho quente, parecia que a água escorria pelo meu corpo levando parte das dores junto; uma sensação de alívio que nunca tive.


Fiz meu jantar e, com uma tremenda dor nas costas, fui para a barraca em uma noite fria de verão sueco de oito graus. Recuperação em doze horas porque amanhã tem mais.

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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