Dia #31: Umeå


A noite foi maravilhosa, um silêncio absoluto e uma paz dentro da barraca. Na noite foi fria, a temperatura chegou a cinco graus. Estava bem protegido dentro da barraca, mas me segurando para não ter que sair para urinar.

Acordei pela manhã, já era tarde, 7h30, sabendo que o destino seria Umeå, 115 km norte. Para isso, revi duas vezes meu plano navegação, uma pelo GPS e outra pelo maps.me para não haver erro. Entretanto, o erro sempre pode acontecer e aconteceu. Resolvi seguir o maps.me, pois me dava um trecho com quinze quilômetros a menos. Quinze quilômetros é muita coisa para quem já rodou meus de 2000 km.


Parti três horas depois de ter levantado, então, lá estava eu novamente na estrada para a última etapa da fase quatro (são sete fases) e para o meu dia de descanso depois de 2365 km depois de Amsterdam. Fico ansioso em toda conclusão de fase, pois toda vez depois desse fim, é hora de parar, rever tudo, planos, manutenção na bike, equipamento, condições físicas; tudo para encarar a próxima fase com o mesmo brilhantismo e segurança da que está por terminar.


Peguei estrada por volta das 10h45 com uma temperatura de 15 graus e tempo nublado. Pedalei trinta quilômetros em meio a fazendas, passando até por um pequeno aeroporto. Foi então que percebi que o maps.me levou-me à E4, autoestrada não permitida a ciclistas. Até então, achava que havia uma ciclovia paralela à ela, segundo o maps.me; não existia. Fiquei encurralado, com a opção de voltar trinta quilômetros de onde comecei e começar do zero tudo de novo por outro caminho, ou arriscar pedalar na E4 por “meros” seis quilômetros. Parei, pensei e resolvi arriscar a E4, a voltar trinta quilômetros. Entrei na rodovia, em uma faixa estreita de uns cinquenta centímetros, onde carros e caminhões passam a 100 km/h; existem áreas de escape, não há acostamento. Definitivamente, não me sentia seguro e depois de dois quilômetros, passei por dois ciclistas que andavam por um mato lateral no canto da rodovia. Olharam-me assustados, talvez, perguntando-se o que esse doido faz aí? Comecei a sentir-me inseguro e logo em seguida parei a bike, atravessei-a pela defensa metálica e fui tentar achar a trilha no mato por onde aqueles dois ciclistas caminhavam. A princípio, eu a achei, andei apenas quinhentos metros nela, o mato começou a ficar alto, atravessei tampas de bueiro carregando a bicicleta, escorreguei várias vezes, um esforço descomunal, à toa. Depois de mais ou menos uma hora nesse lugar, suando e me desgastando, apertei o foda-se. Faltavam três quilômetros para chegar ao ponto onde retomaria o percurso normal. Carreguei a bike até a defensa metálica e comecei a pedalar na maior velocidade que conseguia peoa pista, querendo chegar logo a um ponto seguro. Nisso, passou um carro de polícia e liga a sirene; imaginei imediatamente que fossem parar e me prender na próxima área de escape; comecei a pensar qual seria o meu discurso aos policiais. Brasileiro? Não sabia? Mas no meu país pode! Não sei, foram cinco minutos de tensão total até alcançar a ponto de entroncamento com a estrada que me era permitido pedalar. Cheguei até ela e felizmente não havia ninguém à minha espera. Saí de lá rapidinho e retomei o percurso normal.


A partir de então, depois desse estresse, a viagem ficou mais tranquila, plana no início e com montanhas no final. Fiz duas paradas para lanche e abastecimento de água e passeei por varias fazendas até alcançar a estrada de 37 km que me levaria a Umeå. Não foi um trecho difícil, mas cansativo. Cheguei aos cacos em Umeå, chorando por ter concluído com sucesso mais essa fase. Arrumei uma hospedagem, não tão barata, mas em paz para ficar duas noites descansando antes de partir definitivamente à Finlândia.


Agradeço a todos que me acompanharam e mandaram mensagens de apoio pelo Garmin Inreach até aqui. Vocês fazem parte dessa trajetória! Depois de amanhã tem mais!

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Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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