Dia #30: Sörbyn



Dormi bem, mas acordei bastante. O local do acampamento era bem tranquilo.


Aqui não tem noite, quando o sol se põe, o céu ainda fica claro e permanece assim até o nascer do sol no dia seguinte. No começo tinha certa dificuldade em dormir por conta dessa claridade constante, agora, já acostumei.


Durante a noite, silêncio absoluto. A estrada que passava em cima do “spot” era tranquila. Durante a madrugada, não passou um carro sequer. Ouvi barulhos à noite na lagoa, acordei. Não imaginava que tipo de bicho que pudesse ser, batia na água com muita força. Aliás, minhas encanações com barulhos estranhos em lugares isolados são frequentes. Sempre acho que é alguma pessoa, mas não, como já disse, nunca sei se é bicho, gente ou minha imaginação.


O dia amanheceu frio, a barraca condessou por dentro, fazia nove graus. Saí da barraca e tudo estava como havia deixado na noite anterior, bike acorrentada, alforjes nos seus devidos lugares. Comecei a preparar o desjejum e percebi um novo astral para o meu dia. Sentei na mesa; tinha de tudo, cereais, banana, café, sanduíche misto, ovo, um belo de um café da manhã.


Logo depois, comecei a ajeitar as coisas para partir. Ao som de “Don’t Stop Me Now”, do Queen, fiz cocô no mato soltando-o com um urro de liberdade, nadei pelado na lagoa, definitivamente perdi completamente a vergonha; parecia estar em casa, de tão à vontade. Parti do “spot” gritando, agradecendo a Deus pela oportunidade de viver esses momentos.


Comecei desenvolvendo bem a jornada com média horária próxima dos vinte km/h. Isso foi muito bom, pois sabia que a etapa era longa. Novamente, saí sentido norte, sem lugar específico para ficar, mas tinha em mente rodar mais de cem quilômetros hoje. Estava bem fisicamente, ao contrário de ontem; sentia as pernas respondendo à intensidade que colocava. Com lanches a postos no “feedbag” do guidão, deixei para os consumir duas horas depois da partida, quando já atingia a marca dos quarenta quilômetros. Nesse momento, uma montanha com quinze quilômetros de subida, destino à cidade de Örnsköldsvik; meu Deus, que trava-línguas é esse? Antes, vi uma senhora regando seu jardim, parei e pedi água a ela. Breve bate-papo e parti para a subida. Foi intenso, mas fui cadenciando e aos poucos a conquistando. Uma estrada padrão sueca, rodeada de pinheiros gigantes, passando por diversas lagoas.


Meu odômetro bateu noventa quilômetros quando entrei na cidade. Avistei um mercado, fiz um lanche, repus os mantimentos e continuei.


Hoje, pela primeira vez vi uma placa com o nome da cidade de Haparanda. Essa é a última cidade da minha programação antes de entrar na Finlândia. Fiquei doido quando vi essa placa e confesso não ter a impressão de ter rodado até esse momento 2250 km, desde Amsterdam.


Passei por Örnsköldsvik e dei uma leve olhada no GPS para pesquisar campings, nada! Continuei norte e ao lado da estrada e de cima de uma montanha, no quilômetro 110, avistei um abrigo à beira de um lindo lago. Parei na estrada, comecei a pensar, vou até lá ou não, resolvi descer; não havia cercas, bom sinal. Chegando ao abrigo, reparei na sua imundície, sem condições de montar uma barraca aqui dentro. Fui até a beira do lago, onde havia um píer. Do meu lado direito, a uns cem metros, outro abrigo menor. Larguei a bike e fui até ele a pé para verificar; também imundo, caindo aos pedaços, mas com uma área lateral que me pareceu simpática e limpa. Voltei ao píer e, daí, bateu aquela dúvida, fico ou não fico. Resolvi ficar e jantar no píer para ver se aparecia alguém. Ninguém, somente algumas lanchas passavam pela lagoa. Resolvi montar acampamento ao lado do segundo abrigo. Coloquei minha tela de proteção no rosto contra os pernilongos e montei a barraca. Entrei na barraca já por volta das 21h00 para não sair mais. A temperatura caiu muito, oito graus e já estou preparado para o fim da quarta fase da viagem, amanhã, em Umeä, a 120 km daqui.


Uma boa noite a todos da latitude norte 63.3, Sörbyn, Suécia.

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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