Dia #25: Sjötorp


Depois de uma noite bem dormida acostumando-me à nova barraca, parti às 10h30 rumo norte.


Sabia que hoje não seria fácil. Tão logo acordei, um céu azul sem uma nuvem contemplava o meu dia; sinal de muito calor pela frente.


Os primeiros quarenta quilômetros foram de estradão. Estrada larga rodeada de pinheiros, poucos carros. Pedalar é refrescante, sentir o ar batendo no rosto, trás paz, liberdade, mas disfarça o calor. Na hora que se para, ainda com o corpo quente, dá para sentir o mormaço saindo do asfalto e perfurando meus poros. Um inferno, sem trégua, não há aonde correr. A única tática é água, muita água. Saí com 2,5 litros, sendo que um litro com frutose e BCAA. O BCAA, uma benção, recupera muito bem a musculatura que não tem tempo suficiente para se recompor para a manhã seguinte.

Passei por alguns vilarejos antes de cruzar o povoado de Älkalerby, que exibia uma bela barragem e um lindo reservatório.


Continuei norte sentido Gävle, cidade grande. Dez quilômetros antes, parei no mercado, fiz uma pequena compra, hidratei-me e segui para um camping que havia localizado no GPS. Chegando ao local, não havia camping. Procurei por outro, não achei. O mais próximo estava a quarenta quilômetros norte. Foi aí que vi uma imensa floresta pelo mapa do GPS, uns cinco quilômetros antes de Gävle; marquei o ponto e parti. Entrei em uma vila e comecei a procurar lugares para um acampamento selvagem. Aqui na Suécia, há um lei que permite o acampamento selvagem em lugares públicos. Mesmo assim, todo cuidado é pouco, uma vez que às vezes não dá para saber se o canto escolhido é público ou privado.


Quem tem boca vai a Roma, diz o ditado, mas aqui precisa saber de um bom inglês. Tão logo adentrei à floresta, vi um garoto passando com um cachorro. Fui até ele, falei que procurava um “spot” para camping e perguntei se conhecia algo ou se era permitido em uma localização um pouco mais adiante onde havia um lago. Apesar de ter me animado falando que não via problemas em acampar, não sabia indicar-me um local. Agradeci e segui em frente. Fui parar na beira do tal lago com muitas casas so seu redor; não me senti à vontade. Voltei de onde vim, avistei uma propriedade meio abandonada, mas também não me senti à vontade. Novamente, voltei ao lago e peguei outra direção. Avistei uma casa e uma mulher tomando sol. Tive a ideia de pedir para ela encher minhas garrafas de água. Fui atendido e quando ela retornou, perguntei se sabia de algum canto para acampar. Falou que havia uma trilha do lado direito onde o pessoal corria e pedalava; talvez achasse algum “spot” nela. Um pouco desanimador, mas fui tentar novamente. Entrei na trilha, caminhei um pouco e não vi canto algum, só mata fechada; voltei novamente. De repente, um homem parado na entrada da trilha por onde eu havia entrado; muito estranho, dei-me a impressão que ele me esperava. Veio até mim e me perguntou se eu estava perdido. Falei que não, somente procurava um canto para acampar. Ele me respondeu: você está no lugar certo. Pegou o celular e me mostrou que havia uma cabana um quilômetro de onde estávamos. Despedi, agradeci e fui tentar. Já cansado depois de ter rodado cem quilômetros sob esse calor, eis que surge a cabana. Tudo o que queria, um abrigo, mesa, bancos, uma floresta e um lago à minha frente para contemplar. Vez ou outra, corredores e ciclistas passavam pela trilha acenando a mim. Cheguei à conclusão que era perfeitamente natural estar aqui, fiquei à vontade e montei acampamento.


Obviamente sem banho, hoje o banho foi com lencinho, depois do jantar fiquei refletindo um pouco sobre esse isolamento. É muito louco, tive experiência parecida na Patagônia, talvez ainda mais isolada comparada com a de hoje.


Acredito que todos deveriam dar-se a chance de isolar-se um dia na vida. Os medos simplesmente vem à tona. Barulhos estranhos, passadas, será que é gente, bicho ou imaginação? Passa muita coisa pela cabeça sobre liberdade e o quanto a vida cotidiana nos cobra por momentos como esse. Não é compreensível para muitos, mas aos que compreendem, que sabem que nossa medusa é o nosso próprio espelho, fica a dica.


Hoje, estar aqui sozinho dentro dessa barraca significa olhar para os meus medos e refletir se um dia poderei ir mais além. Será?

Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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