Dia #24: Björklinge


Segundo a previsão do tempo, teremos os próximos dias com sol. Bom por um lado, ruim pelo outro. Bom porque, sem dúvida, nosso astro rei deixa a vida mais colorida. Ruim porque esse sol vem com uma onda de calor de 35 à quarenta graus.


A temperatura mais elevada que já peguei durante uma etapa do Projeto Giraventura foi na Estrada Real, 2013. Nunca me esqueço, já no final dessa expedição, chegando em Cunha com o GPS marcando simplesmente 46 graus. O verão sueco não é assim, mas hoje foi sofrido.


Logo nos primeiros quilômetros, senti as pernas fatigadas. Sabendo do calor, ontem, comprei BCAA em forma de suco para tomar durante o trajeto. Levei um litro de suco que acabou nos primeiros vinte quilômetros.

A saída de Estocolmo é tumultuada. Apesar de ser por ciclovias, vira à direita, vira à esquerda, passa por cima de viaduto, atravessa a pista. Com o GPS apitando o tempo todo, a concentração é necessária, mesmo porque nem sempre o caminho que ele dita está correto; há obras, pistas interditadas, pontes inexistentes.


Enfim, quando finalmente deixei Estocolmo, voltei a encontrar os meus grandes amigos de estrada: os campos de trigo. Agora, talvez uma época de colheita, o trigo é embalado num rolo branco e é deixado nos campos, à margem da estrada. O detalhe é que são centenas deles, em campos enormes, formando um visual diferente e a perder de vista.


O sofrimento de hoje durou cinquenta quilômetros, dez quilômetros antes de alcançar a cidade de Uppsala. Isso porque avistei um supermercado, chama-se Coop. Há outros, mas eu gosto desse. Semana passada, passando pelo Coop, comprei uma costela assada, estava com tanta fome, que a comi com a mão. Hoje, a cena se repetiu; entrei no mercado e fui direto ao setor de assados. Não tinha a visto, dei duas voltas no mercado, mas ela estava ali me esperando. Comprei uma Coca-Cola quase congelada, 1,5 litro de água e saí para comer. Sentei no chão e devorei a costela como um daqueles macacos sem noção do filme de Kubric, 2001, Uma Odisseia no Espaço. Depois de bem alimentado e hidratado, voltei para a bike para cumprir os dez quilômetros que faltavam até Uppsala.

Cheguei à Upsala e a cidade impressionou-me. Primeiro passando por um jardim botânico maravilhoso e depois uma catedral gótica construída em tijolinho. Achei a cidade simpática e resolvi ficar por aqui em um camping que havia achado pelo GPS.


Chegando ao camping, fiquei pasmo pelo seu tamanho, gigante. Ufa, só via um banho de água fria à minha frente. Fui à recepção e o garoto que me atendeu teve a cara de pau de me falar que não havia vaga. Decepcionei-me!

Foi nessa hora que a costela assada encheu-me de energia; incorporando Klark Kent em forma de ciclista, segui sentido norte em busca de um canto para montar a barraca, simplesmente desprezando o calor. Procurei alguns campings selvagens, mas como hoje o banho era necessário, fiquei em dúvida se seria viável. Foi então que avistei um casal de suecos parados em um trailer à beira da estrada. Fui até eles e os perguntei se poderia acampar naquela área; prontamente disseram-me que desconheciam. A mulher propôs-se a me procurar um camping privado, assim como, telefonar a eles certificando-se da vaga; gentileza não tem preço. Depois de uma chamada, achamos um camping, porém 18 km norte, de onde estávamos. Pensei bem, falei, ah, tudo bem é minha rota mesmo; eu vou! A mulher, pasma de ver eu me dispor a pedalar embaixo desse sol, apenas desejou-me boa sorte antes de partir.


Ainda sob o efeito radiante da costela assada, saí feito um trem-bala; parecia que havia ligado o turbo, pedalando 18 km em apenas quarenta minutos; estava sentindo-me o Gerard Thomas no Le Tour de France. Conforme o destino se aproximava, xingava todos os bois das fazendas por onde passava, tamanha a empolgação.


Cheguei ao povoado de Björklinge e ao camping pingando de suor, sem água e morrendo de vontade de tomar um banho. Fiz o check-in e fui aos afazeres domésticos e banho.


Sabe, às vezes, precisamos de uma injeção de ânimo para algumas atividades. Essa pode ser de formas variadas, algumas ruins, outras nem tão ruins e algumas muito boas. Alguém para trocar mensagens durante essa viagem é, sem dúvida, uma das coisas que me anima, mas nunca imaginaria que uma costela assada pudesse me empolgar desse jeito.

Falei há dias que as coisas que estava levando da Suécia eram os mosquitos e os lindos campos de trigo. Hoje, a lista aumentou, número três, costela assada do Coop.

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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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