Dia #21: Tuna / Nyköping

Atualizado: 12 de Set de 2019


Olha, eu sempre valorizei dormir bem, mas não imaginava que pudesse dar muito mais valor ainda. De ontem para hoje, eu simplesmente apaguei. Quando acordei, a impressão era que havia tomado uma anestesia geral. Eu me lembro a hora que deitei e a hora que acordei, nada mais, não teve espaço nem para sonho. Em um quarto escuro e deitado em uma cama com edredom, senti-me privilegiado. Já comentei isso em algumas postagens atrás, damos valor quando sentimos falta, o que Platão chamou de amor. É o baú de brinquedos ultrapassados ou o marketing da nova tecnologia fomentando nossa ânsia de consumo compulsivo. Quando me perguntam sobre o prazer de uma jornada como essa, uma das primeiras respostas é conhecer a mim próprio, meus medos e ter um julgamento individual sobre o que realmente é necessário para ser feliz. Dos bem materiais, às pessoas que nos rodeiam e, finalmente, respondendo à pergunta, em quais condições e perto de você quer envelhecer? Nesse aspecto, minha mãe morreu feliz, apesar de um final melancólico por conta do câncer, morreu com seus três filhos sempre ao lado e ainda, no seu último suspiro, ao lado da filha que mais lhe dava atenção, minha irmã Eliane.


Desculpe, talvez esteja meio melancólico hoje, mas uma jornada dessas não é só para mostrar paisagens bonitas e gente bacana que encontro pelo caminho.


O dia de hoje foi muito cansativo fisicamente. Foram cem quilômetros, uma travessia de balsa e uma montanha interminável nos últimos vinte quilômetros. Doeu, doeu a ponto do joelho esquerdo gritar a apenas dez quilômetros do meu objetivo da etapa de 110 km. Eu ouço meu corpo e quando o sinal fica amarelo, paro antes que ele passe a vermelho. Assim, entrei num vilarejo e vi que existia um B&B. Fui até lá para pedir informação e me pediram para aguardar pela dona. Saquei minha barraca e a abri. Nojenta é elogio. Fedida, suja de barro e com moscas mortas dentro. Preferiria dormir no chão do que dentro dela. À princípio, fiquei sabendo que o B&B estava lotado, mesmo assim, pus-me a esperar.


Passaram-se duas horas e enquanto a dona não chegava, comecei a pensar onde dormiria, caso aqui não funcionasse. Lembrei que passei por um ponto de ônibus com cobertura, seria uma alternativa; a igreja da comunidade, outra. Enfim, já quase entregue, eis que chega a dona, Anne-Christine. Conversamos um pouco, falei que estava indo à Nordkapp. A partir desse momento, não falei nada, mas a minha expressão disse tudo. Ela olhou para mim e ofereceu-me um quarto, aceitei imediatamente. Comecei rapidamente a retirar minhas coisas da bike com medo que ela voltasse atrás na sua decisão; não só não voltou, mas me ofereceu um jantar às 19h00.


Feliz e orgulhoso de tudo ter dado certo, desci no horário marcado para a janta. Sopa, salada com muita cebola e um pedaço de torta não sei do que. Agradeci e comi. Assim mesmo, voltei ao quarto e comecei a comer o pão de ontem com geleia e um pedaço de chocolate da noite passada, pois ainda tinha fome. No final, já com o estômago cheio, tomei um banho e deitei.


Esticar as pernas é muito bom. Fico tentando tocar com as pontas dos dedos o armário à minha frente e a sensação é incrível.


Amanhã é dia de Estocolmo. Não crio tanta expectativa em conhecer essa cidade, assim como fiz com Copenhagen; aprendemos com as decepções. Um pouco mais cansado e adaptado ao tempo de estrada, vou aprendendo que cada quilômetro percorrido é um grau a mais na consciência sobre tudo o que acontece comigo.

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Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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