Dia #20: Linköping

Atualizado: 12 de Set de 2019


Que noite, que dia, mas que noite!


Maravilhado com o local onde resolvi fazer o primeiro camping selvagem, fui deitar-me por volta das 22h00 admirando um lindo pôr do sol da minha barraca. Nem o excesso de mosquitos que insistiam em entrar na barraca irritavam-me.


Totalmente energizado depois do banho no lago Skärsjösjön, que nome, não havia nada que tirasse meu humor.


Peguei no sono muito rápido, e por volta das 3h00 comecei a ouvir pingos de chuva. Lembrei que tinha deixado minha toalha de banho pendurada na bike secando, mas pensei que o máximo que poderia acontecer era deixá-la pendurada enquanto pedalava no dia seguinte.


Por volta das 4h00 o dia clareou e, com ele, desabou uma tremenda de uma tempestade. Não consegui mais dormir; a água da chuva começou a entrar por um dos cantos da barraca molhando toda a minha roupa. Tentei estancar com a própria roupa molhada e por volta das 6h00 resolvi colocar minha capa e calça de chuva e sair daquela situação. Ao abrir a barraca, fui atacado por uma nuvem de mosquitos e pernilongos. Vinham de todos os lados, entravam no ouvido, pousavam na minha comida. Mesmo assim, fiz um café da manhã embaixo do temporal; tudo molhado e pesado.


Enrolei a ensopada barraca com mosquito dentro e tudo e parti rumo a Linköping, cem quilômetros e setecentos metros de altimetria rumo Nordeste. Só não deixei a barraca lá, porque quero fazer uma cerimônia satânica e cruel com ela antes de extingui-la completamente e comprar outra.


A pedalada de hoje foi cruel; não estava bem. Noite mal dormida, café da manhã fraco, meus equipamentos acabando a bateria. Impressão de tudo de qualquer jeito e vai assim mesmo, foda-se. Juro que tentei, mas não consigo ser assim. Não consigo levar de qualquer jeito, tem que ter o mínimo de conforto uma pedalada de cem quilômetros. Não se pode tirar fotos porque molha a câmara, camisa, meias e calças molhadas. A corrente da bike atritando porque a água da chuva secou o óleo. Que loucura isso; fui pirando, mas duas horas depois de já ter errado o caminho umas três vezes, a chuva parou, mas tudo ainda continuava um caos.


Fui avançando a minha quilometragem e, talvez, os dez quilômetros que faltavam para chegar à Linköping tenham sido os mais sofridos até hoje.


Não tinha lugar para ficar, reserva, nada. Entrei na cidade e vi um hotel. Três estrelas, esquece, nem me dei o trabalho de descer para perguntar o preço. Peguei o Wi-Fi do hotel e procurei algo em conta. Achei uma casa, dez quilômetros de onde estava. Fechei a reserva e parti. Cheguei e era uma casa de um casal com filhos, alugavam os quartos da parte de baixo por 480 coroas suecas. Máquina de lavar, cozinha no quarto e banheiro compartilhado. Pedi para usar a máquina de lavar e não paguei por isso. Enquanto minha roupa lavava, voltei para cima para lubrificar a corrente da bike. Feito isso, tirei tudo de dentro dos alforjes até estavam pingando; comida toda molhada; sequei com papel. Pendurei minha roupa, meu colchonete, meu saco de dormir. Tudo voltando a ser como antes. Logo depois, banho e jantar foram as cerejas do bolo.


Às vezes, não damos valor para as coisas mínimas e só nos damos conta quando sentimos falta delas. Guardanapo, toalha seca, meias secas, colchão, travesseiro, água; temos tudo isso com o estalar dos dedos no nosso cotidiano, então, para que se preocupar? A cada dia que passa, penso na quantidade de coisas que juntamos nas nossas vidas, por quê? Quem ganha com isso?


Esses dias, estava lendo um livro infantil de Hamlet e, em uma das cenas, ele toma consciência da podridão que se passa no reino da Dinamarca. Isso me chama muito a atenção, pois pegando esse paralelo de Hamlet, que tenta autodefinir-se depois da certeza do assassinato do pai, mostra a nós que a consciência das coisas que fazemos, utilizamos ou ainda, a consciência do verdadeiro amor, pode não ser a chave do sucesso e da felicidade, mas irá fazer, no

mínimo, que você não seja falso, vazio e comum com você mesmo e com os outros. Então, siga o recado do príncipe: comece a fazer algo que o mude desde já, afinal é você quem manda, não eles, pense nisso, pois se você não fizer, “o resto será silêncio”! Obrigado Hamlet!

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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