Dia #1: Frankfurt / Vaidade

Atualizado: 12 de Set de 2019


Dessa vez eu me adaptei rápido ao fuso. Acordei cedo e demorei a arrumar as minhas coisas, pois o encontro mercado era 11h, que inclusive me fez lembrar de um livro de Fernando Sabino, de mesmo nome, que li na minha adolescência. Qualquer semelhança com Eduardo Marciano é mera coincidência! Ai, ai.


Enfim, estava ansioso para encontrá-la. Sabe quando você marca de sair com alguém e você se prepara todo, passa perfume, vaidade, né? Pois é, no meu caso nem tanto. Não tomei banho, vesti meu único shorts, camiseta Giraventura e um tênis velho que fez questão de descolar a sola pelo meio do caminho, vaidade zero. Fui assim, com meia sola. Estava tranquilo, quando no horário combinado nossos olhos se cruzaram. Paixão à primeira vista, fui a tocando aos poucos e analisando detalhes. Fred foi quem me apresentou essa alemã. Falou-me das qualidades dela e depois de três horas de compromissos e acertos, finalmente entrelaçamos-nos. Passamos o dia todo juntos, conhecemos praças, posamos para fotos e apesar de fazermos um pacto de estar juntos até 2027, perguntou-me do último relacionamento. Ah ciúmes! Tudo bem, faz parte, mas como disse que o que realmente vale é o aqui e agora, o ciúmes passou rápido. Sei que está curioso para me perguntar o nome dela. então te falo: uma bike alemãzinha chamada Bombtrack que me prometeu acompanhar até Nordkapp. Partiremos amanhã juntos para Amsterdam para recordar um pouco do meu passado pela cidade e iniciarmos juntos uma jornada solitária.


Hoje foi cansativo, então, depois de um dia lindo, nada como guardá-la e ir até a estação de trem observar o movimento. Ja se passavam das 20h quando cheguei à estação já vazia depois do horário de pico. Estações de trem sempre me intrigaram pois me remetem a uma história longínqua da quantidade de pessoas e histórias que já passaram ali por séculos. Assim, resolvi tirar fotos em preto e branco, que dão um aspecto mais frio da situação. Concentrado em minhas fotos e em introspeção, eis que surge um ser à minha frente. Forte, boa aparência e cabelo cuidadosamente feito, vestia um colete à prova de escopeta, caregava um revólver e uma pistola (não é trocadilho). Macho alfa escrito na testa, abordou-me falando essa língua esquisita. Minha resposta: “Sir, I don’t speak german!”, então, proferiu na universal: “Are you taking pictures of me?”. Juro que parei e não entendi, mas humildemente respondi que tirava fotos da estação, nada mais. Saquei a máquina e mostrei a ele, que ficou meio sem graça depois de ver que não havia nada registrado; olhamos um ao outro, clima de biblioteca. Partiu rapidamente! Duas hipóteses para a pergunta bizarra, a primeira que ele queria que estar presente na minha câmera, a segunda é oposta à primeira; fico com a primeira. Alguém armado até os dentes com alma extremamente frágil; a vaidade nos torna frágeis como vidro. A decepção em seu rosto fruto da abordagem desastrosa, foi nítida para mim. Sei que elogio faz bem a qualquer um, mas dessa vez não rolou. “Sorry!”


Voltei ao hostel refletindo qual conselho eu daria ao aspirante de macho alfa, talvez esse: “vaidade é defeito, humildade é qualidade?”.


Entretanto, agora veio a mim: quem sou eu para dar conselhos e achar que alguém gostaria de estar presente em minhas fotos? Xô vaidade, vi que tu eras minha!



Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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