DF, Goiás, Minas e SP

Muito tempo depois, volto a escrever. Tudo é muito intenso, os encontros são inesperados.

Hoje cheguei em Guaiçara e fui recebido por um casal de idosos japoneses. Estou hospedado na casa deles.

Todos esses dias que se passaram foram incríveis. Parece que fui picado por um bicho, não consigo parar de pedalar. Aquela folga de duas noites em Rio Preto foi fantasia.

Está muito quente e hoje bebi pelo menos 7 litros entre água e isotônico. Já nos primeiros quilômetros pela manhã minha camisa molha.

As tempestades têm chegado forte fim de tarde. Ontem em Rio Preto e hoje em Guaiçara escapei por pouco de pegar uma dessas na estrada. A BR 301 é melhor no estado de São Paulo. O único problema é que fica sem acostamento em subidas longas o que me obriga a mudar de pista e andar pela contramão no outro acostamento. Vejo muitos bichos mortos na estrada, tamanduás, tatus e até galinhas. As galinhas vão até a pista buscar o milho derrubado pelas carretas que escoam a safra. Mas há muitos animais bonitos, araras vejo aos montes, o difícil é fotografá-las.

Em Frutal, MG, tive a oportunidade de tomar o melhor suco de abacaxi da minha vida, vendido em uma bandinha à beira da BR.

A passagem de Goiás para Minas foi uma loucura. Estrada lotada de carretas e um desnível de 1.400 m em quase 100 km de pedal. Consigo contar com os pontos de apoio das concessionárias das BRs principalmente para abastecimento de água. O pessoal me trata muito bem, mesmo não pagando pedágio.

A curiosidade das pessoas ao verem a bike é incrível. Chegam interessadas e saem espantadas quando falo de onde venho e aonde vou. Alguns oferecem-me pouso, outros pagam meu almoço e uns querem apenas me cumprimentar. Essa interação com as pessoas, sentir esse carinho e a atenção dos ciclistas em fazer de tudo para me encontrar no meio do caminho é emocionante. Nunca havia sentido algo parecido. Em Itumbiara, GO, tive uma sessão de fotos com pelo menos dez pessoas, pagaram meu jantar, queriam saber mais sobre mim, sobre o projeto. Nunca imaginei que um dia fosse conseguir motivar as pessoas dessa maneira.

Hoje, quebrei a rotina de dois idosos que riram comigo a ponto de chorarem. Ontem fiquei na casa de duas garotas, Verena e a Lo, amigas da Juliana, de Palmas. Receberam-me como um antigo amigo, levaram-me de carro para conhecer Rio Preto. Ofereceram-me um quarto só pra mim. O que eu fiz para merecer isso? Como um dia a filha da Juliana se Palmas me escreveu em uma carta: “levar um pouco de felicidade às pessoas”.

É tudo muito rápido e o momento requer intensidade. Não há espaço para muitos devaneios ou pirações. Tenho muito pensado sobre o tempo, nosso maior valor que é igual para todos. Como preencher o tempo de vida que nos foi dado?

Confesso que estou cansado fisicamente. Vejo que a viagem passou do meio quando vejo meus remédios terminarem. Ao mesmo tempo que sei que passei dos 4.000 km hoje, já mais magro e barbudo, sei que o que me resta nessa ampulheta da etapa 8 é o que eu tenho que investir de agora em diante. Minha dedicação e meu foco para terminar essa etapa de forma segura e brilhante na maior praia do mundo, na divisa com o Uruguai.

Sinceramente é muito difícil ver o futuro. Meu dia a dia cada vez mais é o aqui agora, mas com um objetivo claro, assim diria Campbell.


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Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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