Abstinência boa?


Estou em São Paulo, na minha base, de volta de um mini bikepacking pela Estrada Real, de Diamantina a Ouro Preto.


Já falei diversas vezes dos sentimentos antagônicos que me tocam toda vez que termina uma expedição, seja ela de 72 dias, como foi do Oiapoque ao Chuí (etapa 8, 2020), ou como essa de apenas 7 dias pelo Caminho dos Diamantes em Minas Gerais.


Levantei hoje, abri o computador e ao rever o planejamento do ano, minhas metas para 2021, o lançamento do livro Extremos do Mundo agora dia 5 de fevereiro, veio-me um questionamento. É fato que viagens de bicicleta mexem demais comigo, mas a questão é: por que eu as desejo tanto?


Dessa vez, entendo que o desejo é condição da felicidade e sou feliz exatamente porque desejo! Vago, né? Vou explicar! Nesse momento estou muito feliz, mas muito feliz mesmo, porque tenho um rol de coisas desejantes na minha vida. Poderia citar algumas delas, como a expectativa do sucesso do livro da etapa 7 ou a sonhadora etapa 9, na Islândia. Assim, estou feliz com um ideal imaginado!


Sei que a princípio parece uma ideia simples e não tão tentadora, mas o nosso imaginário abre concessões que a realidade não tem. Complicou? Vamos lá! O que seria a etapa 9 na Islândia? A Islândia é uma ilha paradisíaca, vulcões, gêiseres, cachoeiras estonteantes, aurora boreal, estradas incríveis para pedalar, etc, etc, etc. Repare que o meu desejo é como eu imagino a respeito da Islândia, afinal eu não a conheço. Assim, o que eu imagino vai muito além de quando o encontro acontece de fato.


Talvez não seja tão bom ou entristeça ter consciência de que o desejo que vem do nosso imaginário não consegue competir com a realidade ou com a vida como ela é. No entanto, busco uma outra ótica, proporcionando a esse desejo seu devido crédito. Veja, não é a Islândia que faz nascer o desejo em mim e sim eu quem a uso para alimentá-lo Dessa forma, a Islândia serve como um elemento catalizador do meu desejo, que valoriza os atributos que são realmente importantes para mim: liberdade, natureza, aventura, etc.


Particularmente não vejo isso como um problema, uma vez que não há nada de errado em valorizarmos o objeto, uma vez que estamos valorizando a vida. Em um mundo tão caótico como esse que vivemos, esse mundo desejável e positivo de coisas, objetos e pessoas proporciona uma vida mais feliz.


Assim quando desejo estar na Islândia, não me interesso por ela propriamente, pois nesse caso seria masoquista ao descobrir que lá vou passar um frio dos diabos, que venta demais, que nem sempre é possível pedalar ou que às vezes se demora um dia para atravessar um trecho de areia vulcânica de apenas 8 km. Se fosse o caso de me decepcionar todo ano com o que acontece de fato quando experimento as vivências, teria desistido há tempos.

Tanto a imaginação, quanto o desejo, quanto a felicidade serão tanto mais possíveis quanto menor for o conhecimento da realidade desejada. Abstinência boa! Infeliz daquele que não procura seus ideais ou se acomoda na vida como ela é. Ter coragem, sonhar e desejar ardentemente também alimentam e melhoram o mundo ao nosso redor.

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