Dia #38: Ushuaia - Fim do Mundo



►Todos os dias, desde quando idealizei o projeto ou durante ele jamais pensei no seu fim. Nunca imaginei-me cruzando o portal e entrando no Ushuaia. Apenas tinha uma ideia que um dia isso pudesse acontecer, não sabia quando ou como. Assim começou a minha última etapa além direção à cidade mais austral do planeta. Numa manhã de muito frio, onde dormi mal na noite anterior. Com todos meus casacos, luvas e meias que tinha direito, passei frio naquela cabana aos pés da Lagoa Escondida. Acordei com os pés e as mais geladas e logo coloquei-me a arrumar tudo para me esquentar. Junto na cabana, comigo, o Charlie, o Mário e a Stefani, o Jimena e o Andrés. Gente de primeira, com cabeça boa, com papo bom. Na hora de se despedir, todos queriam tira uma foto com o Charlie. Charlie, nos seus oitenta anos, serve de inspiração para qualquer um pela garra e pela disposição. Partimos juntos, eu, o Charlie, o Mário e a Stefani. Uma dura subida de rípio pela frente com trechos de 15%. Logo nos desgarramos, quando olhei para trás, eu ja estava só. Subi sozinho por uma estrada em péssimas condições, sinuosa, com trechos de desmoronamento. Foram três quilômetros assim até atingir quatrocentos metros acima da lagoa. Parei no mirante por um instante, contemplei o que Deus estava dando-me de presente, aquele visual. Comecei os meus últimos 54 km até o Ushuaia embaixo de garoa. Numa mistura de ansiedade, vontade de chegar e de não chegar, fui contornando entre as montanhas geladas, numa paisagem que lembrava muito a Carretera Austral. Muitos carros e caminhões em ambos os lados. Alguns passavam buzinando, crianças dando tchau, para mim. Todos, talvez, sabiam que eu estava pedalando para um sonho e que esses seriam os meus últimos quilômetros. Aos poucos, a chuva começou a apertar. Não parei para colocar a minha capa, nem o plástico para proteger o guidão. A dez quilômetros do fim, meu coração começou a bater mais forte e não tive como segurar as lágrimas. Começou a passar um filme de toda a viagem na minha cabeça, de todos os encontros e de todos os lugares que passei. Dava-me a impressão que estava prestes a ser devolvido de novo ao planeta de onde tiraram-me. A cinco quilômetros do final, já avistava o mapa da cidade no GPS. A chuva apertou mais, continuei, vi o portal, serrei o punho como o Senna fazia e cheguei finalmente ao Ushuaia. Completamente anestesiado e sem entender muito o que estava acontecendo, fui ao centro e comecei a dar voltas em círculo como se tivesse ainda algum lugar a ir; não tinha. Parei um pouco e fui abordado por um jovem ciclista argentino, de nome Brian, que só queria cumprimentar-me e desfrutar um pouco da minha chegada. Fomos juntos à praça onde existe um cartaz com o dizer “Ushuaia, fim do mundo”! Concluí a primeira etapa do Projeto Extremos do Mundo. Com a ajuda de muita gente que me apoiou, queria citar três, o casal César e Regina, e a Lyssandra. César e Regina, por todo apoio no planejamento e a Lyssandra pelo apoio na execução. Sem palavras a vocês três. Obrigado de coração a todos aos amigos e profissionais que enviaram mensagens positivas, à minha família, a meus filhos que sempre acreditam em mim. Temos um novo encontro, em junho, para completarmos juntos o que talvez poucos fizeram ou talvez ninguém fez: chegar aos dois pontos mais extremos do mundo no mesmo verão consecutivo. Fiquem com Deus, até Nordkapp!


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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