Dia #37: Lagoa Escondida



►Dormi cedo ontem e acordei muito tarde hoje. Queria partir e não queria, dá para entender? Esse era meu sentimento na penúltima etapa da viagem ao extremo do mundo. Quem poderia decidir além do coração? A saída de Tolhuin foi dramática. Saí e voltei duas vezes para buscar coisas que haviam ficado para trás. A primeira, meu óculos de sol, depois o que faz muita falta por aqui, a Crocs. Enfim, na estrada quando já se passava do meio dia, voltei à RN3, que hoje levaria-me a algum acampamento selvagem perto da Lagoa Escondida. Eram 55 km até lá num tobogã constante. A paisagem continuava como ontem, muita vegetação e pinheiros, meio às montanhas com seus picos cobertos de neve. Numa pedalada bem lenta, completamente diferente dos outros dias, voltei a encontrar os dois americanos que estavam comigo na Panaderia Union, Mário e Stefani. Pedalamos juntos por um bom tempo, enfrentando o vento contra e revezando a dianteira, até que acabei desgrudando dos dois. Voltei a ficar sozinho por um bom tempo até que em cima de uma ponte vejo o outro americano que também estava na Panaderia, o Charlie. Charlie, um ciclista de oitenta anos, de Nova York, reconheceu-me e acabamos pedalando juntos a partir de então. Já perto da Lagoa Escondida, entrei por uma trilha que beirava o lindo lago. No bosque por onde passávamos, vários pica-paus faziam o som da floresta batendo seus bicos nas árvores secas. Para ser sincero, nunca na minha vida tinha visto um pica-pau em ação e é algo incrível. A força que o bicho tem é visível em cada golpe que ele dá na madeira. Numa trilha de seis quilômetros, numa estrada de rípio belíssima, avistamos algumas cabanas; fomos até elas. Mal cuidadas, mal cheirosas e algumas sem teto ou sem parede, ficamos receosos. Havia mais cabanas para frente e fomos xeretando uma a uma até chegarmos em um hotel abandonado. Entramos no interior do hotel que lembrava muito bem o famoso Overlook Hotel, do filme “O Iluminado”, de Kubrick. Ah, mas nunca iria armar minha barraca aqui dentro, dormiria na carreteira mas aqui, não! Continuamos a caminhar e quando olhamos para trás, o casal de americanos Stefani e Mário. Então, lá estávamos nós quatro novamente à procura de uma cabana. Ouvimos vozes, fomos atrás e achamos a Casa do Ciclista, uma cabana personalizado pelas centenas de ciclistas de todos os lugares do mundo que passam por aqui. Lá dentro, um casal ciclista argentino mais do que conhecido, Jimena e Andrés, do “La Vida de Viaje”. Assim como foi com o Dani Ku em Villa O’Higgins, um prazer encontrar com quem também me inspirou a fazer a rota do projeto Extremos do Mundo. Além deles, outros dois que também estavam em Tolhuin, o chileno Carlos Barria, que encontrei diversas vezes pelo caminho desde Puerto Tranquilo e o catalão Dani Woodman. Foi uma noite de histórias e trocas de informações para celebrar o último dia de viagem para a maioria. Fomos todos dormir, num frio de zero grau para termos forças para continuarmos no dia seguinte o nosso último dia de jornada.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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