Dia #35: Río Grande



►Foi uma noite estranha, acho que confortável demais para os padrões. Enfim, acordei cedo, tomei um café da manhã bem continental, incluso no preço da diária, comprei duas empanadas de carne e parti. A posto de fronteira chilena estava a menos de um quilômetro do hostel. Sem maiores problemas, passei por ele rapidamente. Logo depois, a estrada se extende por uma grande faixa de mais ou menos cinco quilômetros de rípio delimitando Chile e Argentina. Entro no limite argentino numa estrada ruim, mal conservada, de se esperar. Também passo rapidamente pela imigração e alfândega e sigo à RN3, que me levaria à Río Grande. O vento costumeiramente bate na diagonal, sentido sudoeste com variações para oeste dependendo do dia. Dessa maneira, ele ajudou-me em parte, uma vez que a estrada também tem frequentes mudanças de sentido. Eram 92 km até Río Grande, mas de uma maneira geral consegui desenvolver uma média de 20 km/h no vento oeste e 30 km/h no vento sudoeste, assim tive uma média de velocidade bem razoável. A estrada é inóspita, sem vida, um pampa imenso e desértico. O problema é que não se pode parar de pedalar em momento algum. Tirar uma foto com tripé, admirar um cenário, nem pensar; o vento inferniza. Pedalar com vento lateral, além do incômodo, gera preocupação. Você é constantemente empurrado ao meio da pista, onde o tráfego é pesado. Já que Río Grande é uma cidade industrial, imagine o que não tem de caminhões por aqui. Entretanto, tudo é aprendizado. Pode parecer loucura mas quando ele me empurra para o meio da pista, o valor que me vem é o de ter que cuidar mais de mim. Ele não me deixa em paz um minuto, está a todo momento, digo a todo segundo, mandando algum recado. Levou minha lata de atum dias atrás. Saí correndo atrás dela, não a alcancei e quando voltei para a bike, estava levando o meu saco de pão. Gritei no meio daquilo: “meu Deus, o que acontece?” Hoje, depois de duas horas pedalando, morrendo de fome, resolvi parar para comer. Comecei a procurar cantos na estrada que pudessem proteger-me. Achei um morrinho, para lá fui. Escondido, tomei um novo café da manhã, com cereais e empanadas, suficiente para continuar. Mais calmo e mais forte, voltei à estrada. Dialoguei com o vento, pedi sua ajuda. Senti que ele falou que me ajudaria, mas não da maneira que eu gostaria. Fiquei de boa, ele foi batendo gelado, na quina do lado direito das minhas costas e assim, empurrando-me até Río Grande. Cheguei à cidade e parei para ver o mar. Estar de frente ao Atlântico de novo, após dias atrás no Pacífico é deslumbrante. Consegui parar dez minutos no meio daquela friaca de dez graus para admirar um pouco o movimento do mar, sua cor. Antes de partir, uma última despedida, uma lágrima cai por estar tão perto de uma natureza tão extrema e linda, como o mar, o vento. Não queria sair de lá, não fosse o frio. Precisava achar um canto, pedi ao GPS, que me arrumou um prontamente. Rotina pós, instalação, banho, comida. Toda a minha história de hoje deu-me ânimo para continuar amanhã, na longa viagem que tenho até Tolhuin, minha penúltima parada antes da cidade austral mais extrema do universo. Às vezes, parece que vivo um sonho todos os dias e que as minhas noites são histórias passadas vagando sobre a minha memória. Realidade ou não, aqui estou para contar essa história, a história da minha jornada aos extremos da vida.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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