Dia #34: San Sebastian



►Fui deitar cedo ontem, um refúgio muito sujo. Um beliche com duas espumas como se fossem colchões. Na espuma de cima, varias moscas varejeiras mortas. Dormi, mas meio ligado da possibilidade de ter algum outro bicho lá, como uma aranha ou um escorpião. Por volta das 21h, ouço o motor de um veículo encostando ao lado do refúgio. Saí para ver do que se tratava; era um furgão encostando para passar a noite. Que susto! Vi que raposas também rodeavam o local, provavelmente em busca de alimento. Assim, resolvi trancar a porta para me senti mais seguro. Não havia fechadura, apenas um buraco na porta e outro parede; então, foi por lá que passei meu cadeado da bike para poder dormir mais tranquilo. Apesar da noite gelada, o refúgio protegeu-me do vento, assim, consegui descansar razoavelmente bem. Coloquei todos os meus casacos, enfiei-me no saco de dormir e na mantinha que não me deixaram passar frio. Acordei às 7h e o dia amanheceu com um sol pedindo passagem. Muito frio naquele imenso pampa. Fiz meu café e comecei a arrumar as minhas coisas como forma de me aquecer. Antes de partir, hora de deixar a marca da minha estadia na parede preta de sujeira, juntamente com dezenas de outras de diversos países; assim foi, meu nome, Giraventura e a data de hoje. Parti! Esperava vento contra e lateral nesse primeiro trecho até a encruzilhada para Paso San Sebastian. Difícil pedalar nesse rípio! No meio caminho, uma grande e grata surpresa. Dei de cara com meu amigo chileno Hernan, vindo em sentido contrário ao meu, indo para Cameron. Paramos para uma longa prosa, tiramos fotos e combinamos de nos encontrar em Rio Grande, já na Argentina. Segui viagem e também cruzei com os franceses do cachorro, que dormiram comigo em Morro Chico, mas não paramos. Resolvi parar num hotel para pedir água e a pessoa que me atendeu foi grossa e me falou para ir buscar água na casa ao lado. Não passa pela minha cabeça alguém ter a coragem de se negar a dar um pouco de água, água é vida, quando se pede água, está se pedindo para viver. Enfim, fui à casa ao lado e um senhor completou minhas caraminholas com o maior prazer. Quando cheguei finalmente ao refúgio da encruzilhada, estava com fome. Parei para fazer uns sanduíches de atum para mim. Tudo difícil, vento na cabeça, abridor de lata que não abre a lata, difícil de pegar a comida e o saco de pães. Daí o vento me leva a lata de atum e tem que abrir outra. Olha, é uma batalha de sobrevivência nesse vento, seja lá em que direção ele estiver. Alimentado, segui viagem rumo ao Paso San Sebastian. Sim, o vento ajudou, mas sabe quando as pernas já estão cansadas? Daí, vejo uma paisagem bacana para tirar uma foto e paro; nem a bike consegue ficar no lugar. É aquele barulho do vento o tempo todo no ouvido, como que dizendo que não é para você ficar parado ali. Do tipo: sai daí, camarada, esse lugar não lhe pertence e se ficar vou lhe aborrecer até sair! Não dá para lutar contra, então vem a irritação. Não se consegue parar para tomar água, para tirar foto, muito menos comer uma bolacha apreciando a paisagem. E tem que dar graças a Deus de ele estar a favor de sua direção. Humilhação! Você é humilhado, pisoteado e ainda tem que agradecer a situação por não ser pior do que está. Haja persistência! Seriam mais sessenta quilômetros até a divisa de Chile e Argentina, seriam. Entretanto, na último cidade do Chile, San Sebastian, antes da imigração, avisto um restaurante bem simples. Era cedo, 13h30, parei para comer algo, sentado e dentro de um local. Então, reparei que também se oferecia hospedagem. Já bem cansado da viagem e há três dias sem banho, eu me entreguei ao luxo desse simples hostel. Almocei sentado e me instalei num quarto simples, mas com cama com cobertor e ducha quente. Hoje, não sei descrever a minha sensação de tomar um banho depois de três dias sem. Olhei para a cama, e nela ela fui cochilar. Não cochilei, dormi e sonhei. Sei que, pelas minhas contas, já foram 2275 km até agora desde Puerto Montt. Esse trecho final é muito cansativo, tinha previsto isso, mas vivê-lo é completamente diferente. Queria sair para tirar umas fotos do lugar que estou, mas não consigo levantar daqui. Lá fora, um moinho de vento, a menos de cinquenta metros daqui, mostra a direção e a força dele. Teremos mais um encontro amanhã na minha jornada a Rio Grande, eu sei, sem estresse, mas tudo o que mais quero nesse momento é descansar um pouco dele.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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