Dia #32: Porvenir / Estância Draga



►Acordei cedo para preparar a minha ida. Quase tudo pronto na noite anterior, só faltava amarrar tudo na bike, tomar o café e partir ao porto. A balsa zarparia às 9h, então, teria que me apresentar às 8h. Caxias do jeito que sou, deixei o hostel precisamente às 7h40. Eram quatro quilômetros até o porto. Lá cheguei, vários carros, várias pessoas para o embarque. Vi um único ciclista, passei por ele, cumprimentei-o e fiquei esperando a balsa chegar na gelada manhã de Punta Arenas. O ciclista veio até mim, apresentou-se, Hernan, chileno e morava em Santiago. Começamos a conversar, e me contou que como estava de férias do trabalho e da esposa, resolveu passar alguns dias explorando Porvenir de bike. A balsa atrasou quase uma hora, pois estava vindo de Porvenir no vento contra. Assim que atracou, acomodamos nossas bikes e subimos, continuando a mesma prosa. Músico de clarinete da orquestra sinfônica de Santiago, contou-me que iria ao norte de Porvenir, acampar e explorar uma área totalmente desconhecida a ele. Eu, já iria ao sul, em direção a Onassim e depois a Paso San Sebastián, última divisa Chile e Argentina da minha expedição. Acabamos almoçando juntos, ficamos amigos e pré-combinamos de nos encontrar em alguma encruzilhada por aí. Bom papo, gente para frente e hora de tomarmos rumos opostos. Segui meu objetivo sul, sem destino. Não sabia exatamente quanto iria pedalar hoje, muito menos onde ficaria. Aqui, tudo depende de tanta coisa, chuva, tipo de rípio, vento, que pela primeira vez estava simplesmente indo ao sul em direção à Baía Inútil. A estrada começou bem, com uma leve subida e vento lateral. Aos poucos, Porvenir ficou para trás e a ilha começou a mostrar-se para mim; que espetáculo. Às vezes, dava-me a impressão de que estava sentado em uma sala de cinema assistindo a um filme que acabara de ganhar um Oscar de melhor fotografia. Um mar, Oceano Pacífico completamente diferente do nosso Atlântico. Parecia mais raivoso, suas cores também diferentes, alternavam manchas pretas junto com verde e azul. Foi uma sessão de fotos que nunca vai traduzir o que assisti com meus próprios olhos. A estrada é bem inóspita, passa por algumas fazendas e seus trechos de rípio são alternados de bom para regular. Hoje, bateu um cansaço, físico. Estava desenvolvendo bem o pedal, mas esse vento gelado nas costas e, o põe e tira casaco, começaram a me cansar. Não sei se pelo peso também. Estou autossuficiente em comida por três dias e de água por um. Sei que depois de ter pedalando trinta e cinco quilômetros, já comecei a olhar para os cantos para achar um lugar para parar. Realmente eu não estava com muita expectativa, à princípio, qualquer lugar serviria-me, uma vez que não teria destino certo; assim também disse o gato a Alice no País das Maravilhas. O vento de popa acabou ajudando-me, mas hoje, outra coisa incomodava-me nele, sua temperatura. Tomar vento congelante nas costas foi a primeira vez e confesso que é desagradável. A temperatura começou a baixar vertiginosamente, já estava em seis graus no meu GPS. Enfim, tudo isso começou a me incomodar e resolvi tentar dar um fim na situação. Não achava lugares com água para se acampar. O tempo foi passando e quando cheguei no quilômetro quarenta avistei uma estância, Estância Draga, uma fazenda enorme de frente ao Pacífico. Cheguei até o portão, trancado. Não sabia se entrava ou não. Fiquei ali parado, olhando para tudo que é canto para ver se avistava alguma alma, nada! Aos poucos, com o corpo sem pedalar, fui esfriando. Coloquei minha jaqueta, mas ainda tremia de frio. Fiquei ali parado por longos dez minutos. Estava indo embora, quando avistei uma pessoa na janela da casa principal, comecei a acenar. Ela não respondeu, ficou ali parada, então resolvi entrar. Porteira adentro, dirigi-me à casa, eu, completamente congelado. Uma senhora muito simples, de aproximadamente oitenta anos, que ouvia pouco, recebeu-me. Identificou-se como Maria Leticia e disse ser a cozinheira dos donos que não se encontravam. Ela colocou as mãos no meu rosto e me disse: filho, você está muito gelado, entre agora! Levou-me para uma cozinha, falou pouco, foi até o fogão e me preparou um prato de sopa de lentilha com carne de cordeiro. Olhei para aquela situação, para aquela senhora e vi a minha mãe cuidando de mim. Sra Letícia escutava muito mal, eu tinha que berrar para falar com ela. Ofereceu-me pão com geleia, mate e empanada de maçã. Obviamente, comi tudo, e até nem parecia que não havia comido um prato de salmão com purê há algumas horas com o Hernan. Levou-me ao alojamento, também bem simples. Uma velha casa com alguns colchões e um banheiro sem água quente. Disse-me para eu ficar à vontade. Deu-me dois pães, feitos por ela, para o meu café da manhã. Sei que de uma forma pragmática, eu me trouxe aqui, mas hoje não tem como deixar de lembrar da minha mãe, que talvez, na véspera do meu aniversário, quis presentear-me com uma estadia primorosa e amorosa como essa! Te amo, mami!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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