Dia #30: Punta Arenas



►Não preciso de relógio para me despertar, 7h30, esse é o horário de todo dia. Então, em ponto, levantei e comecei a preparar o café com o restante de comida que tinha. Dessa vez acertei em cheio nos três dias. A noite foi tranquila, fiquei ainda um pouco preocupado com a chegada de alguém no alojamento, uma vez que, estava extremamente bem acomodado sozinho, tendo como únicos companheiros, varios gatos, cachorros e uma aranha de grama na pia. Antes de sair, aquela vontade de ir ao banheiro dar aquela cagada, café da manhã com cereais, vai vendo. Não tive coragem, já tinha ido ontem e foi punk. Era um barraquinha de madeira, imunda, com um buraco que você se sentava. Uma cova abaixo dele, era o depósito de merda. Talvez um dos lugares mais nojentos e fedorentos que já frequentei. Enfim, dei uma segurada total na situação e chego à conclusão que o ser humano é um dos animais mais imundos da face da Terra. Apenas fingimos que não somos, usando perfumes e se achando superiores. Produzimos lixo, gastamos água à vontade, limpamos a bunda com um papel que vai do vaso para a água de algum rio ou lago que fornecerá a água para bebermos. Somos a escória desse mundo e nos achamos superiores, vai entender? Bem, arrumei minhas coisas e parti às 10h rumo a Punta Arenas. Pela previsão, o vento seria favorável de quinze nós e realmente foi. Estrada plana, movimentada, eram apenas cinquenta quilômetros até o meu destino. No meio da estrada, encontrei um alemão, Daniel, seu nome. Paramos, conversamos um pouco e viemos pedalando juntos revezando a roda. Chegando à Punta Arenas, fomos direto ao cais comprar os bilhetes para a travessia do Estreito de Magalhães para Porvenir. Daniel iria hoje, eu, na sexta-feira. Bilhetes comprados, resolvemos sair para almoçar e demos um pulo até a zona franca. Simplesmente, gigante. Entramos num shopping e fomos a um fast-food. Não me recordo a última vez que vi um hambúrguer com fritas e refrigerante à minha frente. Devorei um duplo. Conversamos mais um pouco e nos despedimos. A essa altura, com um Big Mac dentro de mim, fitas e refringente, tudo começou a borbulhar. Havia mais dois quilômetros até o hostel que havia reservado. Pedalava e peidava, peidava e pedalava, parecia que a perna era o motor e o cu, o escapamento; sincronia total. Enfim, faltava limpar o sistema de vez. Cheguei ao hostel, não conseguia falar, não sorria, cara amarrada. A atendente mostrou-me o quarto. Agradeci e perguntei onde seria o banheiro. Ela me indicou e para lá fui. Talvez uma das melhores cagadas da vida, acumulado há dias, desde sardinha, macarrão, geleia e até um Big Mac. Bem, saí aliviado! Encontrei com a atendente de novo. Ela olhou para mim, eu para ela. Eu com sorriso latente. Começou a conversar comigo e me disse que falo bem o espanhol. A minha resposta foi: ah, eu fiz um curso no Brasil. Entretanto, a resposta correta seria: filha, depois de uma cagada que acabei de dar no seu banheiro limpinho e cheiroso de vaso branco, a felicidade vem à tona, tudo melhora, até o espanhol! É difícil assumir, mas diga-se a verdade, tive que vir até Punta Arenas, no Chile, no fim do mundo, para dar uma das melhores cagadas da minha vida. Amém! Feliz e satisfeito, saí para dar um lá volta no centro. Cidade grande geralmente dá a mim um pouco de asco, mas essa eu achei simpática. Fui até o mercado, fiz a compra do restante e voltei para o hostel. Um dia de descanso antes da reta final. Pelas minhas contas, chego ao Ushuaia por volta do dia 31 de janeiro, talvez. Nem acredito que cheguei até aqui. Aproveitar esse dia de descanso, fazer o planejamento final para a terceira e última etapa do projeto Extremos do Mundo 1!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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