Dia #29: Villa Philip



►Estava eu, dormindo e por volta das 5h, ouvi uma movimentação, mas não dei muita bola. Achei estranho, pois quando fui dormir ontem, só estavam eu e os franceses com o bendito cachorro. Acordei 7h30 e quando saio da barraca, vejo mais três pessoas. E aí? Surgiram de onde em plena madrugada? Bem, uma francesa, um suíço e um inglês, realmente tinham acabado de chegar. Estavam vindo do sul e traumatizados com o vento, pois resolveram sair de Villa Tehuelches às 3h. Conseguiram pedalar 47 km até Morro Chico e desistiram por conta do vento de vinte nós. É verdade que durante a madrugada, a ventania fica mais branda, mas na parte da manhã ela volta com tudo. Os três estavam destruídos e um pouco antes da minha partida, já tinham perfeitamente se acomodado em seus sacos de dormir para uma linda manhã de sono. O dia começou frio, e que frio! Três graus de manhã! Que dureza ir à beira do rio escovar os dentes e lavar a panela do jantar de ontem. Minha mão congelava naquela corredeira. Estava na esperança que a direção do vento fosse ser favorável a mim, como foi ontem, mas hoje a história foi um pouco diferente. Enfrentei uma ventania lateral com ventos de vinte nós e rajadas de trinta. Meu Deus, uma verdadeira batalha esses 45 km iniciais. A estrada que leva a Punta Arenas tem tráfego intenso de carros e caminhões, então, é um olho para o meu equilíbrio e o outro no retrovisor. As rajadas vinham leste e pegavam meu lado direito, muitas vezes jogando a bike para o meio da pista. Quando avistava um caminhão se aproximando, jogava a bike no acostamento de rípio, para não facilitar. Os ônibus respeitam um pouco mais o ciclista, já os caminhões, nem todos. Por muitas vezes, com fluxo de ambas as direções, a minha pista por muito tempo era o rípio. Avistei uma cabaninha no meio da estrada, hora de parar! Era pequena, consegui encaixar parte da bike dentro dela; queria fazer um lanche com o mínimo de proteção do vento. A cabana, imunda, toda pichada e cagada, difícil ficar ali comendo, mas não tinha opção, pois na ventania não se consegue fazer nada, nem ficar parado. Continuei a jornada e passei pelos franceses com o cachorro, estavam sofrendo também. É muito difícil pedalar nessas condições, é tenso e não há espaço para fotos ou momentos de prazer. Entretanto, a única coisa que há espaço é justamente entender o vento. O vento parece uma criança mimada, quer cem por cento da sua atenção e caso você não lhe dê, sem dó, ele lhe derruba. É louca essa relação, nunca havia pensado em ser tão flexível como estou sendo. Acho que todos deveriam passar por uma experiência dessas um dia. Você já pensou o que o vento representa na sua vida? Talvez, o mesmo o que representava na minha, ou seja, nada! A pergunta que faço aqui na Patagônia é como um troço desse pode exercer tamanha influência física e, principalmente, psicológica em alguém? O vento possui variáveis de velocidade, de temperatura, de umidade e de direção. Cheguei à conclusão que essas variáveis fazem parte de uma equação, que do outro lado do igual, estou eu! É louco, não é? Até Villa Tehuelches foi uma batalha campal. Chegando à vila, reparei que a estrada mudaria de direção. Sinceramente, não fiquei muito animado, estava esgotado. Pensei em parar na vila, assim, entrei no único restaurante existente e a dona praticamente bateu à porta na minha cara. Apesar de estar com fome, a falta de hospitalidade fez-me tirar energia sabe lá de onde para continuar mais 47 km até Vila Philip. Sabia que era um risco numa estrada completamente inóspita, mas resolvi assumi-lo. Lá fui eu! Estrada novamente e ele comigo, agora diagonalmente. É mole? Tentei entendê-lo e usá-lo a meu favor. Quando a pista estava livre, tentava cruzá-la na diagonal, ou seja, o bonitão jogava-me para frente. Nesse segundo trecho, a estrada mudou uma vez radicalmente de direção, acalmei e senti sua força lateral. Mudou de novo radicalmente, numa subida, e ele veio de popa e aconteceu algo que nunca tinha acontecido comigo. Progredi numa subida de uns quinhentos metros de 6,5% de declividade, com todo esse peso, acreditem, sem pedalar. Em seguida, na mesma direção, veio a descida, aí não teve jeito, glorifiquei-me descendo a 70 km/h; nunca atingi essa marca com essa bike. Entretanto, isso era só um tira-gosto. A estrada voltou à sua direção normal com ele me pegando na diagona, quando finalmente alcancei Villa Philip depois de 93 km pedalados. Em Villa Philip, apenas uma indicação do iOverlander. Fui atrás dela. Entrei numa propriedade, bati palmas procurando pelo tal do Sr Juan; ninguém! No fundo, avistei um senhor de barba, bem simples mesmo, cortando lenha. Perguntei pelo senhor Juan e ele disse-me que estaria em Punta Arenas. Então, com cara de piedade, perguntei a ele se conhecia algum canto para eu passar a noite. Pediu para eu lhe acompanhar. Mostrou-me um alojamento, dentro, seis camas, um banheiro sem vaso e um fogão a lenha. Olhei para aquilo e vi o paraíso, eu sozinho, sem francês, sem cachorro, nesse lugar. Pediu para eu o acompanhar novamente, ia mostrar-me onde que se cagava, diga-se, estava precisando. Depois disso, simplesmente desapareceu e me largou sozinho aqui. Ocupei todo o espaço, acendi o fogão a lenha e fiz a minha comida. No frio do lado de fora, ouço rajadas, sei que é para lembrar que está presente e teremos um novo encontro amanhã. Temos mania de tentar mudar as pessoas para um jeito que nos é conveniente. Aprendi aqui que há coisas que não podem ser mudadas e somos muito pequenos para essa ação. Aceitar, dizer sim, muitas vezes é a melhor maneira de conviver, uma vez que não existe relação perfeita e sim, relação harmônica, nesse caso, diria que me encontro em uma relação de vinte nós!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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