Dia #24: Posto Vialidad - entroncamento Ruta 7



►Acordei cedo, fiz meu café e fiquei conversando com o Fred e a Brigitte. Eles são bem bacanas, estão dando a volta ao mundo e terminarão em São Paulo, assim, propus de nos encontrarmos novamente em Sampa. Hoje, à princípio, meu destino seria acampar numa casa abandonada uns setenta quilômetros de La Leona. Algo começou a me aguçar desde ontem, na verdade estava doido para fazer uma etapa longa. A estrada, a mesma de ontem, estradão, mas mais desértica. Na verdade a RN 40 é uma estrada que corta o deserto da província de Santa Cruz. Não há nada, pouca vida, vegetação rasteira, clima seco. Numa estrada tão aberta assim, um fator passa a ser predominante, o vento. Cheguei à conclusão que o vento é bipolar. Você pode contar muito com ele, ou pode não contar nada. Às vezes seu melhor amigo, outras, transforma-se num inimigo voraz em questão de minutos. Podemos dar-nos ao luxo de nos afastar de pessoas bipolares de nossas vidas, não é o caso do vento. Sou obrigado a conviver com ele diariamente, tornando assim a minha vontade, uma desprezível variável. Nos primeiros setenta quilômetros, ele pegou-me lateralmente, estava difícil de pedalar. Antes de parar na tal casa abandonada, confesso que estava um tanto desanimado para fazer a jornada longa. Avistei a casa, um rio passava perto dela. Ótimo lugar para o camping de hoje, mas aí comecei a pensar em hipóteses. Resolvi parar na casa para conhecer, na verdade, um grande sítio fechado por cercas derrubadas. Eram 14h, muito cedo para terminar meu dia. Pensei que se quisesse continuar, teria que me alimentar, e bem! Resolvi fazer-me um almoço: macarronada com sardinha. Montei toda a cozinha e literalmente almocei com direito a café, sobremesa e escovação de dentes. Sim, estava preparado para mais setenta quilômetros de jornada. Comecei a pedalar, agora com o tanque de combustível completo. Já estava perto da bifurcação de El Calafate, minha rota seria oposta à cidade. Virei à esquerda e as coisas mudaram. O vento quis ser meu amigo, não só meu amigo, meu melhor amigo. Com sua ajuda na primeira reta plana, desenvolvia nada menos do que 45 km/h, parecia que pilotava uma moto. Controlava no mapa do Garmin as mudanças de direção da estrada, às vezes, ele pegava-me mais lateralmente, mas oitenta por cento do tempo estava na popa. Surgiu então, o grande desafio da etapa, uma serra. Foram pelo menos dez quilômetros de subida de declividade de seis por cento, muita coisa. O vento também me ajudou e foi necessário para a escalada cadenciada. No alto da montanha, um mirante, onde podia-se avistar todo deserto e até parte do Fitz Roy, quase escondido pela curvatura da Terra. Parei para tirar uma foto e um carro encostou também, dentro, um casal. Pedi água, foram super gentis, encheram meus três litros já completamente secos após a subida. Continuei minha jornada, o vento passou a ser meu conhecido, como um desses do Facebook. Pegou-me lateralmente e essa foi a saga dos meus últimos trinta quilômetros, brigando para deixar a bike equilibrada e desenvolver uma média horária razoável. O posto da Vialidad apareceu no quilômetro 140, foi um alívio. Cheguei ao posto, onde já havia hóspedes, quatro franceses e suas barracas. Também um hóspede permanente, o Miguelito, um vira-lata marrom, gordinho e simpático; provavelmente, acostumado ao fluxo de ciclistas. Humildemente, pedi-lhes um espaço para montar a minha. Perguntaram-me de onde tinha partido hoje e lhes disse: La Leona. Em seguida, perguntaram-me rindo se eu estava com algum problema psicológico pelo fato de ter pedalado 140 km e subir uma serra de 820 m em uma etapa. Rimos e ficamos amigos. Continuaremos amanhã, agora no rípio da rota 7 em direção a Tapi Aike, minha última parada antes de entrar no Chile novamente em Puerto Natales.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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