Dia #23: La Leona



►Acordei bem, estava disposto. As duas noites em El Chalten foram necessárias para o corpo e a mente. Demorei a arrumar minhas coisas, mas consegui arrumar de uma maneira que ficou tudo bem ajeitado. Resolvi viajar com uma mochila, levando os mantimentos para o dia. A bike estava lubrificada, prontinha também para encarar a estrada. Fui despedir-me do senhor da pousada. Sempre lembro das últimas palavras do meu pai a mim, ensinando-me a agradecer às pessoas que cruzam nosso caminho. Comentei esse ensinamento com o senhor e sua esposa, donos do hostel, ao despedir-me deles. Afinal, a atenção desprendida por eles a mim, no dia que cheguei em completo esgotamento físico e psicológico da travessia de Villa O’Higgins foi, no mínimo, humana! Sem intensão, levei-os às lágrimas após minhas palavras. A sinceridade está estampada no rosto de cada um, não há mais nada a dizer! Peguei estrada, num belo dia de sol e vento de sete nós de cauda. Foi o suficiente para num terreno plano, conseguir manter uma média de trinta quilômetros por hora. Inacreditável! Gritava, xingava, a medida que desenvolvia. Depois de dias andando no rípio com médias de oito, dez, até doze, eu voei, literalmente, carregando todo esse peso. Aos poucos, o Fitz Roy foi ficando para trás, mas impossibilitado de sumir na paisagem por sua imponência e altura. A viagem mudou completamente, passou a ser de estradão, longo, num asfalto que parecia um tapete. A bike agradece, depois de ter levado tanta pancada na Carretera. Hoje, tudo fluiu assim até alcançar a RN 40 depois de 88 km. Seriam então mais vinte quilômetros até La Leona, o último ponto de abastecimento e parada da minha jornada a Puerto Natales. Entrei à direita na RN 40, sentido El Calafate e aí a coisa mudou de figura. O vento, antes a meu favor, ficou contra. Que dureza! Comecei a sentir a posterior da coxa esquerda, parei para alongar em frente ao lindo lago de águas verdes, que contornei desde El Chalten. Uma turista de Barcelona veio conversar comigo, perguntando-me as questões de sempre: de onde vinha, para onde ia e qual o propósito disso. Perguntou-me também se conhecia Torres del Paine, pois estavam indo para lá. Falei que não iria para lá, mas lhe disse que já havia visitado, e é um dos lugares mais espetaculares que havia conhecido. A RN 40 continuou até eu alcançar o parador La Leona depois de 109 km pedalados. Cheguei morrendo de sede, já havia tomado três litros de água e suco pelo percurso. Eu não suo muito aqui, mas o ar seco dá muita sede. Entrei no hotel e já perguntei pelo camping. A atendente levou-me a ele, e lá, já montei a barraca e comecei a preparar meu jantar. Chegou um casal da Suíça, Fred e Brigitte, há três anos dando a volta ao mundo, conversamos bastante tempo. Depois, ainda chegou um casal de alemães. Estou refazendo a minha programação para amanhã. Gostaria de pedalar mais, se o vento deixar. Vamos ver o que acontece nessa nova etapa, completamente diferente do que eu passei nas últimas semanas.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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