Dia#22: El Chalten / Descanso



►Simplesmente apaguei! Acordei às 9h da manhã, nunca tinha acordado tão tarde até então. Que delícia, que noite de sono e descanso, meu corpo agradeceu enormemente. Comecei o dia lavando as roupas que fediam tudo o que pode-se imaginar: merda, graxa, suor, francês; tudo! Tudo misturado em um punhado e colocado devidamente no bidê com quase metade do sabão em pó que trouxe. A água, nem preta saiu, saiu uma cor meio azulada esverdeada, um horror! Minhas coisas espalhadas pelo quarto, todas! Uma zona, cada negócio num canto, como que se quisesse abusar de um espaço, que hoje para a minha realidade compreende os alforjes da bike e a minha barraca de camping. Saí para fazer mercado, ir à loja de material de construção comprar WD para dar um bom trato merecido na bike que me trouxe aqui. Fiz tudo isso! Muitas pessoas na hospedagem onde estou; de todos os países, Israel, EUA, Suíça; muitos jovens. De velho, só eu. Conheci um suíço, Manu, que me convidou para um trekking. Boa intensão, mas ele não sabia com quem estava falando. Não saia daqui hoje, nem para uma caminhada de mais de três quarteirões, ainda mais para um trekking até o Fitz Roy. Aliás, o Fitz Roy foi admirado e aplaudido por mim, sentado num barco atravessando a Laguna del Desierto. Agradeci, mas minha admiração tem limite físico, principalmente a pé. Eu me empolguei e dei um invejável talento no sistema de câmbio da bike. Se tivesse num ambiente próprio, talvez a desmontaria e a limparia toda, até como forma de agradecimento pelos 1350 km juntos desde Puerto Montt. Haja força para aguentar o rípio da Carretera, mais vinte dias de bunda fedida! El Chaten é um povoado, lugarzinho caro, cheio de gringos com dólares e euros, fascinados pelo monte Fitz Roy. Vendem-a como a capital patagônica do trekking, tudo marketing. Pode parecer loucura mas penso que a Patagonia devesse ser uma coisa só, patrimônio mundial, como a Antártica, nem de Chile, muito menos da Argentina. Bem, como estamos em território dos “hermanos” e as coisas são argentinas, logo, o atendimento argentino é típico modelo Rio de Janeiro. Deu para entender? Enfim, a cidade grande da província de Santa Cruz é El Calafate, que por sinal é outra cidade cara, mas que dessa vez passarei longe. Fiz um mercado enorme, devo ter comida para uns quatro dias, comprei gás, dá para ficar um bom tempo largado, aí pela estrada. A partir de amanhã, uma jornada diferente, sem rípio, através de longas estradas rumo à Puerto Natales. Torcendo para que os ventos dessa estradas sejam a meu favor e que a partir de amanhã possa contar mais um capítulo diferente dessa jornada!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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