Dia #20: Villa O’Higgins



Minha noite foi estranha. Dormir assim, no meio da natureza, no meio da nada é uma experiência que todos deveriam ter. Não sei explicar bem, fica-se vulnerável. Um dos meus sonhos essa noite foi que alguém chegou atrás da barraca, pegou minha cabeça com as duas mãos e queria roubar meu cérebro. Acordei gritando, assustado! Levantei cedo, 6h, preparei meu café e já dei um “hello” para a Mag e a Greet na barraca vizinha. O dia não estava tão frio, arrumei minhas coisas, elas as delas, e partimos juntos para a dura etapa de 91 km até Villa O’Higgins. Visual lindo, encaramos a primeira serra e fomos, devagar, mas fomos. O passo era lento, 8 km/h de média, parecia que ninguém estava fazendo muita questão de chegar. A Mag, fotógrafa profissional, acabou tirando quase todas as fotos, uma vez que a bateria da minha câmera morreu. Reparei muito nessas duas personagens nesses dias e concluí que formam um belo casal, são apaixonadas uma pela outra. Impressiona muito a educação e a discrição delas. Não ficam falando, muito menos levantando bandeira de nada, são na dela, curtem-se e as curta quem quiser. Elas me tratavam o tempo todo como um amigo, um amigo verdadeiro. Ouvem quando falo, respeitam os momentos de silêncio da pedalada de cada um. Acho que nunca tive uma simbiose tão grande com duas pessoas pedalando comigo como elas. Está certo que o ritmo delas é diferente, muitas vezes, esperava-as longos minutos até alcançarem-me, mas sinceramente, isso pouco importava-me. Assim fomos aos poucos e no perigoso rípio em forma de bola de gude, alcançando Villa O’Higgins. Em uma descida, um tombo! Greet caiu. Paramos para ajudá-la e por Deus nada aconteceu, uma vez que estávamos no meio do nada. As duas abraçaram-se, continuamos! Villa O’Higgins foi chegando com um lindo visual passando por lagoas, glaciares estupendos. No meio da estrada, encontrei o Ben, o ciclista francês que passou o ano novo comigo em Hornopirén. Contou-me que atravessaria para a Argentina amanhã. Estávamos perto de Villa O’Higgins, quando a dois quilômetros do final, um tombo feio, dessa vez da Mag. Se ralou inteira. Parei para socorrê-la e pensei que tivesse quebrado o braço. Tentou subir na bike de novo, não conseguiu e começou a chorar. Parei uma caminhonete, colocamos a bike dela na caçamba e pedi para o motorista levá-la ao posto de saúde mais próximo. Eu e a Greet terminamos a Carretera sozinhos e sem comemorar muito. Fomos direto ao posto de saúde, deixei a Greet lá e saí para procurar um canto para dormirmos. Achei e voltei lá para ver como estava o estado da Mag. Teve mais escoriações e uma luxação no pulso. Elas ficaram profundamente agradecidas pelo o que fiz, pelas traduções inglês/espanhol com a enfermeira, etc. Penso eu: mas eu não fiz nada fora do que faria a qualquer um? Enfim, o pior não aconteceu. Fomos ao hotel, deixamos nossas coisas e saí para comprar o tíquete da dura travessia para a Argentina, amanhã. As duas vão fazer a travessia à Argentina na quarta, queriam que eu ficasse aqui com elas esses dias para fazermos trekking juntos e conhecermos os glaciares. Entretanto, pensei e decidi que minha história continua, agora sem elas, afinal, tenho uma longa e difícil jornada ainda pela frente, a Carretera acabou para mim. Ainda por “coincidência”, subiremos no mesmo barco amanhã. Eu em direção à Argentina, elas em direção aos glaciares do Chile numa excursão. Um momento de despedida de duas amizades sinceras que selei nesse mundo. Que o destino cruze nossos caminhos de novo um dia, quem sabe em Amsterdã, para a saída do Projeto Extremos no Mundo, parte 2. Eu só tenho agradecer à Carretera Austral por tudo o que proporcionou-me e principalmente pelo fato ter aberto meu olhos, fazendo-me respeitá-la nesses vinte e um dias de travessia. Aqui, fica meu registro e meu respeito à Rota 7 na Patagônia, pois ela é, sem dúvida, uma das estradas mais perigosas e mais desafiadoras por onde já pedalei.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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