Dia #17: Cochrane



►Dormi mal, uma tremenda dor no pescoço pelo esforço de ter tanto chacoalhado ontem no rípio.

Sentei na mesa para o café da manhã junto com quatro alemães e um australiano, todos de bike. O papo alongou-se, a troca de experiências é incrível, fala-se de tudo, de bike, de estradas, de lugares.

Na hora de sair, fui de encontro ao australiano, o mais velho da turma. Eu o vi voltando do lago, segurando uma vara de pescar; trazia também um peixe para o seu almoço. Fui de encontro a ele e começamos a conversar longamente. Ele mostrou-me a sua bike, impressionante de grande e pesada, tirei várias fotos. Imagina alguém que leva a sua casa na bike, é ele, até serrote. Contou-me que a bike é sua esposa e sua vida. Disse também que se livrou do seu relógio de pulso logo no primeiro dia! “Para que saber o horário?” Não o julgo, cada um leva a vida que quer, só acho incrível essa questão de valores. O que significa um Rolex para alguns, para outros é lixo. O que significa liberdade extrema para uns, para outros é insegurança. Ter a possibilidade de fazer essas comparações, sem julgamento, sem certo ou errado, é o que vale para mim.

Aprontei minha bike, fui sair e dei de cara com os dois suíços com quem dormi na cabana há alguns dias. Darren e Melaine vieram com uma surpresa para mim. Acharam minha caraminhola perdida pela Carretera, resgataram-a e me devolveram. Sensacional! Aos poucos, as coisas vão ficando pelo caminho, como um processo de desapego inconsciente que passo. Ontem, perdi uma mão das minhas luvas, há algum tempo atrás, a máscara da GoPro. A caraminhola voltou para mim, a tão importante caraminhola que levo no garfo, lotada de suco. Sem explicação!

A estrada foi pesada hoje. Foram 49 km até Cochrane e 900 m de elevação, puxado! A Carretera ajudou mais do que ontem. Pedalei paralelo ao Rio Bravo em todo momento. Um espetáculo da natureza em cânions cortados pela água verde berilo do rio. O tempo estava nublado, mas as ditos saíram ótimas. Fiz muitas paradas para alimentação, as subidas foram pesadas. O dia foi de pó, os carros e as motos passavam em velocidade e o vento-contra trazia toda a nuvem à minha direção. Difícil de respirar, parava e molhava a baina que protegia meu rosto e boca da poeira. A dez quilômetros do final, comecei a contornar o rio por uma encosta. Estava pelo menos uns duzentos metros de altura e o rípio totalmente liso, facilitou a pedalada.

Uma subida final, como sempre, antes de chegar à Cochrane e finalmente apareceu a cidade. Não entrei muito nela, já fui procurar algo logo nas primeiras hospedagens. Uma senhorinha muito simpática no portão, Sra Ana, veio até mim e me ofereceu a hospedagem por dez mil pesos; aceitei! Última chance, antes das próximas duas noites de camping selvagem para terminar a Carretera Austral em Vila O’Higgins.

Fui ao mercado fazer a compra para os próximos dois dias, voltei, tomei um banho e cozinhei.

Amanhã, há previsão de chuva pela manhã. Vou ver a sua intensidade antes de partir. Amanhã é dia de aventura, dois dias de estrada para alcançar o fim da Carreteira. Não sei se comemoro ou se choro!


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria