Dia #14: Camping Doña Dora / Dia de Descanso



►Choveu a noite toda e o dia amanheceu assim, chuva e frio. Através da janela da cabana, via a Carretera à minha frente e carros enlameados passando por ela. Decidi ficar por aqui, descanso mesmo, ontem o dia foi muito puxado, quis preservar-me para encarar outra etapa, por mais curta que ela fosse até Puerto Tranquilo. A Carretera é uma estrada que requer o máximo de atenção, o rípio molhado é um sabão. Há motoristas imprudentes também por aqui, confiantes e orgulhosos de suas pick-ups 4x4, cometem verdadeiros absurdos, causando acidentes e pondo em risco a vida de todos. No camping onde estou não há eletricidade, mas há uma lareira, a qual, não saio da frente. A dona do camping é uma senhora muito gentil, traz-me lenha o tempo todo e me ofereceu um almoço, ainda bem, pois estava com auto-suficiência de um dia. Lá fora faz frio, cinco graus. Às vezes, a chuva pára, abre o sol, minutos depois volta, clima de verão patagônico. Na parte da tarde, depois de muito refletir na parte da manhã, tomei uma decisão drástica, resolvi encarar um banho. A pior parte do banho é o momento antecedente a ele, ou seja, arrancar a roupa, que troço sofrido. Para sair também é duro, principalmente quando me enxugo com aquela super toalha de microfibra que mais espalha a água do que enxuga. Enfim, consegui lavar tudo de maneira adequada. Desde o começo em Puerto Montt, esse é meu segundo dia de descanso, daqui para frente, não sei quando me darei outro. Estou dentro da programação, tenho alguns dias extras, mas quero tentar usá-los mais para o final, uma vez que, aqui, a adaptação à velocidade de mudança das coisas é fator essencial, haja resiliência! À tarde, quando a chuva sessou, saí para tirar umas fotos. O camping é muito grande, possui criação de galinhas, marrecos, cordeiros. Fico olhando para esses bichos e me pergunto como eles conseguem sobreviver nessas condições com essa camada de penas? São 19h e pedi a previsão do tempo ao Garmin para amanhã; mostrou-me uma nuvenzinha com sol aparente. Torcendo para que ele esteja certo, pois se não estiver, vou mesmo assim. Às 20h, um casal de suíços chegou para me fazer companhia nessa noite. Chegaram completamente encharcados, batendo os dentes, deu dó! Confesso que me dá uma certa aflição ter ficado parado assim o dia todo por mais que tivesse coisas para fazer, como manutenção na bike, rever planilha e organizar tudo. Olho à Carretera através da janela da cabana; eu me imagino nela, pedalando e lidando com os intempéries. Idealizei e chamei esse projeto de Extremos do Mundo, porque queria alcançar pedalando, os pontos extremos, meridional e setentrional, mais próximos dos polos sul e norte terrestres. Hoje, chego à conclusão que os extremos do mundo são mais do que isso, traduzem os meus limites e a minha adaptação à uma vida completamente fora da curva. Estar aqui é viver fora do padrão, fora da caixa, é desnudar-me, é expor-me e viver uma vida como ela é, e não como eu acho que ela deveria ser.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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