Dia #13: Camping Doña Dora



►Não preciso de despertador. Aqui o metabolismo é uma maravilha, parece que o corpo agradece a tudo isso, até a dor no joelho melhorou muito. O sono é uma maravilho, o intestino é um relógio, sonho toda noite, desde artistas de TV, família, ex-colegas de trabalho, bichos a extraterrestres, tudo. Poderia fazer psicanálise a partir de agora porque material não falta para tal. Apesar de ter levantado cedo, não consegui sair cedo. Estava sem comida e sabia que o dia de hoje seria no meio da estrada. Aqui o mercado e a padaria abrem 11h, alguns, a partir das 12h. Tenho a impressão que o povo aqui gosta de dormir até um pouco mais tarde. Então, fiquei dando um tempo na hospedagem conversando com um francês e um casal de israelenses que iriam passar o carnaval no Brasil. É muito bacana dar dicas do nosso país. Hora de partir, fui ao mercado, terminei de fazer as compras e estrada! A Carretera está sendo pavimentada no começo da Villa Cerro Castillo. Um trânsito intenso de máquinas e homens trabalhando nesses primeiros dez quilômetros, depois rípio. Sabia que hoje o dia iria exigir paciência. Pedalar no rípio é pedalar em diversos tipos de terreno. Há o rípio liso, com pedras soltas, outro todo esburacado. Exige cuidado! O dia estava nublado e ventava muito forte nesses primeiros quilômetros. Foi quando, por volta do quilômetro vinte, depois de uma decida, comecei a contornar o lago do Rio Ibanez. Foi aí que a história mudou. O vento era muito forte e conseguia desenvolver 5 km/h, quando conseguia. Muitas vezes parava e esperava para ver se acalmava um pouco. Que nada, até o fim do trecho do rio, foi ventania na cara o tempo todo. Olhei no mapa e vi que no término do rio, viraria proa leste, então imaginava que o vento fosse pegar-me lateralmente; foi isso que aconteceu. Mesmo assim não foi fácil porque ele perseguiu-me por longos quilômetros até eu começar a subir uma serra. Foram vinte quilômetros de subida, mas com vento muito mais brando. O tempo começou a ficar estranho. Nuvens negras começaram a aparecer e comecei a sentir levemente os primeiros pingos. A essa altura já estava com frio, parei para pegar minha jaqueta e me encapuzei todo. A chuva começou leve, horas vinha um pouco mais forte, mas nada igual aos primeiros dias. Sabia que eram duas grandes montanhas e no fim da segunda faltando vinte quilômetros para o suposto camping, a chuva apertou e com ela, o frio. Comecei a pedalar mais rápido, queria chegar logo, estava com os ombros doloridos. Não sabia se o tal camping existia mesmo e comecei a ver possibilidade de acampar em algum lugar na estrada. Puerto Tranquilo estava a cinquenta quilômetros de mim e nessa chuva, depois do desgaste da ventania, chegaria lá só à noite, se chegasse. Não quis arriscar, apostei e tive fé no camping. A contagem do GPS foi regressiva, estava ansioso, cansado, dez quilômetros, cinco, quatro, um, e não avistava o camping. A chuva virou uma tempestade. Quinhentos metros, nada! Trezentos metros no GPS, vi algumas bandeirinhas do meu lado esquerdo. Comecei a acreditar que seria o camping. E estava lá! Camping Doña Dora, um lugar gigantesco, deve ser uma fazenda! Abri a porteira, só tinha eu! Fui à casa principal e quem me atendeu perguntou-me se preferia acampar ou ficar numa cabana com lareira por sete mil pesos. Que pergunta estúpida, não é? Passei batido pelo fantasmagórico acampamento. Entrei na cabana e me trouxeram as lenhas. Aqui não há energia elétrica. Para o banho, teria que andar uns duzentos metros nesse frio até o acampamento, mas banho, quem precisa de banho hoje? Armei minha cozinha e fiz um ravióli de carne com queijo e molho de tomate. Terminei meu dia saboreando essa gororoba em frente à lareira com o céu caindo do lado de fora. Estou bem e preparado para amanhã. Obrigado a todos que me enviaram recados pelo Garmin, em especial, um beijo carinhoso à Lyssandra, queridíssima Lys, que me acompanhou direto hoje, o dia todo pelo mapa, dando sempre aquele apoio mais do que necessário para a jornada continuar e terminar bem.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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