Dia #11: Coihaique



►Ontem à noite, fui dormir preocupado, meu joelho não estava legal. Fiz um vídeo ao meu ortopedista e o informei que não queria ficar tomando remédio. Ele falou para eu parar na primeira cidade e comprar uma joelheira patelar, urgente. O detalhe é que a cidade, Coihaique, estava à 88 km de mim. Acordei muito cedo hoje para encarar o desafio, às 8h, com doze graus de temperatura e um céu nublado. Fiz um bom alongamento, passei pomada, rezei à minha mãe, respirei fundo e parti rumo à Coihaique. Os primeiros quilômetros foram de vento contra, dolorosos. Tive dúvidas se iria conseguir. Um sentimento de preocupação foi tomando conta de mim, comecei a ficar enjoado. Minha cabeça parecia que ia explodir. Respirei, tentei manter a calma. A viagem começou plana, com sobes e desces razoáveis. Decidi manter uma cadência média, tentava girar, sem forçar. Aos poucos, fui entrando entre as montanhas gigantes da Cordilheira e ficava impressionado com o que via. Estava literalmente hipnotizado. Eu me sentia um grão de areia no meio do deserto. Um ser insignificante perto da grandiosidade e beleza de tudo aquilo. A minha tática começava a dar certo. Com o joelho aquecido e controlando a cadência, conseguia pedalar. Reparei que a Cordilheira tinha um papel fundamental nisso, afinal, se ela não quisesse, eu não passaria. Assim, a partir do quilômetro quarenta, mais calmo, ela resolveu dar-me um ajuda. O vento mudando de direção, parecia uma mão apoiada nas minhas costas empurrando-me para frente; agradeci. Numa estrada extremamente movimentada por carros e caminhões, cheguei à bifurcação Viviana e optei continuar no caminho mais longo por asfalto sentido Puerto Aisén. Aos poucos, como num passe de mágica, a dor foi sumindo. A Cordilheira abriu-se para mim definitivamente, com o começo de uma linda tarde de sol. A subida final rumo à Coihaique foi mais sensacional. O vento de popa era muito forte, incrivelmente tão forte, que parava de pedalar por alguns segundos e a bike, com todo o seu peso, movimentava-se sozinha. Nunca havia experimentado algo similar. Em estado de êxtase, cheguei ao topo da montanha pedalando ao lado de uma sequência de moinhos de ventos. Nesse momento, vi um coitado de camisa amarela, subindo em direção contrária à minha, e ao vento, empurrando sua bike. Paramos para conversar e o conheci. Hugo, de Santos, vinha do Ushuaia, aonde pretendo chegar. Conversamos um pouco, trocamos informações, tiramos fotos e seguimos nossos caminhos contrários. Na hora de voltar para a minha bike, demorei para subir porque o vento não permitia. Faltavam mais cinco sofridos quilômetros até o destino final. Entrei na cidade! Coihaique é uma cidade grande, cheia de restaurantes, bares e hotéis. Queria algo simples, alternativo e aconchegante. Joguei na sorte no GPS alguma hospedagem. Ele me indicou uma hospedaria ao lago do cemitério. Fui direto, bati na porta e me atendeu uma senhora muito simpática, Adriana. Aqui era sua casa. Entrei com a bike, guardei tudo e depois dela passar-me todas as informações da cidade, fui a uma casa ortopédica no centro. Achei a minha joelheira patelar, coloquei-a imediatamente e a sensação era que havia tomado uma anestesia no joelho. Fiquei feliz, muito feliz. Saí para conhecer a cidade, uma graça. Parece uma cidade europeia. Ruas limpas, motoristas educados. Uma feira de artesanato na praça central, parei para saborear um sorvete, orgulhando-me do meu mais novo presente, a joelheira. Há coisas que não têm explicação. Era para eu estar aqui, o Caminho permitiu a minha passagem.

Resiliência, em física, é a capacidade de um corpo retornar à forma original depois de ser submetido à uma deformação elástica. Pode ter a ver comigo hoje, mas gostaria de tratar desse tema no sentido figurativo, consenso a capacidade que todos temos, e às vezes não sabemos, de se adaptar às mudanças impostas pela vida.

Nessa viagem, a adaptação é a palavra chave. A Cordilheira quem manda, é a mãe, ou você se adapta às suas contingências ou é melhor não vir enfrentá-la. A humildade perante a tudo isso é um valor básico, essencial à sobrevivência. Prestes a fazer 52 anos, hoje eu me senti criança, ouvindo os conselhos dela, quem sabe, da minha mãe. Obrigado Cordilheira dos Andes.


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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