Dia #10: Villa Mañihuales



►Difícil despedir, algumas vezes mais, outras menos. Fico tocado quando você vê nitidamente que a pessoa faz pelo simples fato de gostar de ajudar. Foi assim com a Sra Inês e sua família, do Refúgio dos Ciclistas. É um negócio para eles, mas se percebe nitidamente que o dinheiro é um complemento e não o principal. Foi assim também em Puyuhuapi, onde passei o ano novo com o Claudio e sua esposa. Essas pessoas são anjos em carne e osso, que estão aqui com essa missão.

Passei a noite no alojamento com um casal de alemães, muito da paz, Fabian e Carolin, diretamente de Schwarzwald para o Chile. Saíram antes, de caminhão, levanto as bikes com problemas à Coyhaique.

A jornada do dia não foi difícil, apenas 55 km e 529 m de elevação acumulada, separavam as duas vilas. Entretanto, o que valeu mesmo a pena, foi o dia. Choveu a noite toda, amanheceu nublado e por volta das 14h, o sol escancarou de vez. Uma ventania levou aquelas nuvens pesadas para outro lugar. Hoje, deu para sentir um pouco da nova variável invisível, que terei que lidar de agora em diante, o vento. Ele veio forte nos quilômetros finais, pegando oeste lateral e sul de popa, ajudando a fazer hoje a melhor média horária de toda a rota.

Em muitos momentos só tinha eu pela Carretera, passavam poucos carros, ciclistas, vi dois.

Talvez um dos dias mais bonitos até aqui. A Carretera corta as gigantescas montanhas pelo meio, eu me sentia um nada perto daquilo. Às vezes, passava pertinho delas, questão de metros, e via que o negócio é de pedra maciça mesmo, nem terra tem. Quem fez, caprichou nos detalhes!

Chegando a Vila Mañihuales, achei um residencial para dormir. Sou o único hóspede daqui. Uma senhora, Sra Maria, bem doente atendeu-me. Mal conseguia andar e movia com muitas dificuldades as mãos. Perguntei se ela estava bem e se podia ajudar em algo. Ela falou que não, que era doente e assim tocava a vida. Eu me alojei num quarto, quando a vi tentando subir a escada com um balde e um pano. Fui lá dar uma bronca nela e a disse que poderia desequilibrar e cair. E perguntei: onde a Sra vai com esse balde? Ela me respondeu que iria limpar o banheiro para eu usar. Falei que não precisava, que o banheiro estava limpo. Daí, falou que queria arrumar o quarto. Nesse momento, chegou o filho dela. Fui conversar com ele, que me disse até sua mãe era assim mesmo, que não parava um momento e que há tempos teve um derrame que a deixou nessas condições.

Fui dar uma volta na cidade, fui à padaria comprar pão e depois passei para conhecer os arredores. Um lago maravilhoso, lindo, formado pelo Rio Mañihuales, apenas traventos metros de onde estou.

Enfim, essa vila, um ponto de passagem. Amanhã acordo muito cedo para enfrentar os 87 km até Coyhaique, a maior cidade da Carretera depois de Puerto Montt. Embora, dormir!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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