Dia #9: Vila Amengual / Descanso / Luto



►Acordei hoje pela manhã e a lareira já tinha apagado. Olhei no termômetro, três graus e ainda chovia. Não iria mesmo pedalar hoje, nem se estivesse sol. Hoje, faz exatamente um ano que perdi a minha mãe, achei que em respeito a ela, deveria ficar um pouco quieto. Entrei na casa da Sra Inês para me fazer um chá, ela me ofereceu um pão caseiro e se pôs a conversar comigo. Disse a ela que gostaria de ficar por mais uma noite, contando o porquê. Nesse momento, as lágrimas vieram a meus olhos e não resisti, comecei a chorar muito. Inês, sentindo a situação, levantou-se, pegou um pedaço de papel e se pôs a meu lado com a mão sob meu ombro; tempo suficiente para me recompor. Minha mãe sempre estará presente em mim, eu a sinto, aconselhando-me o tempo todo, dando broncas e conselhos de mãe. A chuva sessou e logo apareceu o sol por alguns instantes. No alto das montanhas, via-se os cumes cobertos de neve e os galos, passarinhos, cachorros fazendo o som dessa pequena vila perdida na Cordilheira dos Andes. Aproveitei o dia para fazer tudo que não tinha conseguido fazer bem até aqui: lavar bem minha roupa, fazer manutenção na bike. Inês lavou a minha roupa encardida na sua máquina por dois mil pesos. Organizei todas as minhas coisas, impossível de se fazer quando está chovendo o tempo todo. A chuva me tira do prumo. De volta ao alojamento, foi hora de descansar, dormir. Deitado em frente à lareira, ouvia o estalo da lenha, que aos poucos, aquecia todo o ambiente. Através do pequeno vitrô, a lenha em brasa e a calmaria lembravam-me quando costumava deitar na cama quentinha da minha mãe. Levantei e descobri uma biblioteca na vila, que poderia me emprestar o sinal de Wi-Fi por alguns instantes. Fui até a biblioteca, fiz algumas postagens e logo voltei para o meu canto. Não estava muito a fim de interação hoje, nem virtual. O alojamento veio a calhar num dia em que necessitava de introspecção. Um filhote de cachorro começou a me seguir e veio até meu alojamento. Entrou por sua conta, foi caminhando e se colocou embaixo dos meus casacos espalhadas pelo colchão onde estava meu saco de dormir. Não tive coragem de colocá-lo para fora, mas tomei o cuidado de enrolá-lo num tapete para não sujar as únicas peças de roupa que tinha limpas. Às 19h, chegou um casal de ciclistas alemães, muito da paz, Fabian e Caroline, que passaram o ano novo comigo em Puyuhuapi. Uma boa companhia, vindos do norte do Chile, Arica, pedalando já por 2200 km. Totalizarão três meses e meio de viagem terminando-a em El Chaiten para então voltar à Alemanha à região de Schwarzwald (Selva Negra). Bem, hora de comer e dormir. Que minha mãe acompanhe-me amanhã nesses 66 km até Vila Mañihuales.


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria