Dia #8: Ventisquero Colgante / Villa Amengual



►Um dia que entrou para a história da minha vida. A chuva havia parado, então, a ideia era conhecer o Ventisquero, um famoso glaciar com uma cascata ao lado, dentro do Parque Nacional Queulat, e depois partir viagem rumo a Villa Amengual, simples assim! Entretanto, não tão simples pelos 92 km que me separavam o destino final de Puyuhuapi e pela travessia em rípio da montanha de Queulat. Éramos em quatro ciclistas partindo com destino à Villa Amengual, e tudo começou muito bem em Puyuhuapi, o sol finalmente deu suas caras, contemplando-nos com uma linda paisagem. Foram vinte quilômetros até a entrada do parque, beirando a encosta e um lindo cenário repleto de montanhas cobertas de neve. Já dentro do parque, passa-se por uma linda fonte suspensa, dando acesso ao lago onde desemboca a cascata do Ventisquero. Peguei um barco que me levou para bem pertinho dessa maravilha. Natureza implacável, que me cobraria depois o preço de tamanho deslumbramento perante magnífica obra. O Ventisquero fica no alto de uma montanha, a impressão que dá é que o glaciar “enganchou” ali e não tendo mais para onde ir, começou a chorar, e suas lágrimas deságuam incansavelmente sobre um lago verde, onde eu me encontrava. Hora de partir, afinal, uma longa jornada pela frente. Nesse momento, já estava separado dos outros ciclistas e continuei minha viagem solo. Fui informado que teria trinta quilômetros de rípio pela frente e depois um trecho de asfalto até Villa Amengual. Tudo muito bem nos vinte quilômetros iniciais até dar-me de encontro com a Montanha de Queulat. Logo no começo da montanha, comecei a sentir os primeiros pingos de chuva. A cara do dia mudou de repente e uma chuva torrencial com vento começou a lavar a montanha. Ainda conseguia pedalar pelo rípio, horas descansava, mas não por muito tempo, para o corpo não esfriar. Foi sacrificante, motos passavam e buzinavam aplaudindo tal façanha. Embora com fome, não parava para comer porque isso levaria-me o que mais de precioso tinha, o calor do meu corpo. Foram seis quilômetros de uma demorada e inclinada subida no rípio molhado, quando finalmente avistei o morro abaixo. Não se via nada, tudo nublado! Fui cuidadosamente descendo e literalmente congelando. Já completamente molhado de suor por dentro da jaqueta, o vento batia de frente e me parecia cortar a alma. Fim de montanha feito com sucesso e uma alternativa de saída a Puerto Cisnes, quis continuar. Eram mais trinta quilômetros até Villa Amengual, por asfalto. Menos mal, não fosse os falsos planos de três porcento e vento contra que enfrentaria por todo percurso. O odômetro do GPS, já mostrando sua bateria fraca, fazia vagarosamente sua contagem regressiva até Villa Amengual, quando olhei para o mapa de sua tela e vi uma “cobrinha”. Custei a acreditar que teria que enfrentar mais uma montanha a três quilômetros do final; era verdade. Não havia volta, opções mais perto, a única alternativa era essa. Iniciei a subida, já muito fraco, mas ainda pedalando. A dois quilômetros da vila, já empurrando a bike e enfrentrando o frio, sentia que ainda sobravam-me forças para chegar; não me deixei entrar em pânico, continuei. Alcancei Villa Amengual, 92 km e 1600 m de subida acumulada, depois de Puyuhuapi. Uma pequena vila, trezentos habitantes, sem hospedagens. Avistei uma placa: casa do ciclista, fui até ela. Comecei a gritar na frente, ninguém ouvia-me. Resolvi entrar na casa e um garoto de onze anos deitado no sofá, chamou a sua mãe. Sra Inês veio atender-me e viu o tamanho da encrenca à sua frente. Mal conseguia falar, queria um banho quente, só. Ela me levou para um alojamento, uma sala grande com vários colchões e lareira. Infelizmente, o único chuveiro elétrico da casa não estava funcionando. Sem problemas, eu me coloquei em frente à lareira, que começou a evaporar toda a umidade da minha roupa encharcada. Saquei essa roupa mesmo, coloquei imediatamente uma roupa seca e depois de me acalmar um pouco, voltei a casa da Sra Inês para lhe pedir um pouco de comida. Muito atenciosa, preparou-me um prato com salada, batata e carne de porco. Nesse momento, seu filho de onze anos, olhando para mim, veio dar-me um abraço, desejando-me feliz ano novo, espantei-me tamanho carinho; crianças têm um sentimento puro, diferente dos nós. Tomei um relaxante muscular, voltei ao alojamento. Já eram 22h e o dia ainda estava claro. A Cordilheira é implacável, aqui fico sobre suas ordens e o seu desejo da minha continuidade. Não há mais o que fazer, enrolei-me no saco de dormir, coloquei todos os casacos que trouxe e descansei de um dos dias mais desafiadores da minha vida.



Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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