Dia#2 - Hornopiren

Atualizado: 22 de Abr de 2019



►Acordei bem, havia um café da manhã incluso na diária. Levantei, tomei e comecei a arrumar minhas coisas. Na arrumação, não achei minha joelheira patelar. Como fiquei com dor ontem, resolvi improvisar. Desci ao jardim do hotel, peguei uma pedra, arrumei dois elásticos e os prendi com silver tape. Meti esse troço abaixo da minha patela esquerda e funcionou.

Sai de Contao às 9h30. Peguei estrada rumo Hornopiren, eram 46 km, e de cara um serra. Serra forte mas de asfalto até chegar num trecho antes de uma ponte, daí, surpresa. Um trecho de rípio em obra. Pedalei no rípio na Argentina uma vez em 2012, não me lembrava. Cascalho solto, arenoso e escorregadio. De cara, saí empurrando. Mesmo sem sapatilha o risco de queda era grande. Os carros passavam e levantavam um poeirão. Muitos trabalhadores, máquinas pela estrada. Consegui pedalar um pouco depois de um trecho mas realmente era duro.

Depois de um tempo, voltou o asfalto e uma descida. Fiquei feliz mas durou pouco tempo. O rípio voltou e por ele fui pedalando com cuidado. Num momento, surge um cara em uma pick-up em sentido contrário. Vi que ele foi diminuindo a velocidade e dando seta para parar. Abriu o vidro do carro e me perguntou se precisava de algo. Falei que não mas começamos a conversar. Conheci o Daniel, que me falou que a estrada iria ficar um pouco melhor. Agradeci, deu o meu cartão Giraventura a ele e parti.

Voltei a pedalar e de repente apareceu um cara de moto a meu lado. Foi parando e me perguntou em espanhol aonde eu ia. Falei que era ao Ushuaia e ele me disse que também era o seu destino. Perguntei de onde vinha, daí, a resposta chocante, Alasca! Imediatamente, pedi para ele encostar e começamos a conversar.

Tiramos várias fotos. Marco era o nome dele, um italiano da região da Bolonha, muito gente boa. Contei a ele sobre minhas viagens, sobre a minha visita à Itália em 2017. Tirou foto de tudo, despedimos-nos e partimos.

Continuei meu pedal, parei pra comer um pouco, um pão com geleia. A alça da minha câmara que estava pra fora da minha pochete enganchou no selim. Perdi o equilíbrio mas consegui colocar o pé no chão, esse mesmo pé foi escorregando no rípio e me fazendo abrir o espacate. Inacreditável, a bike foi pro chão e saiu o alforje. Os carros passavam rápido levantando a poeira e eu tentando sair daquela situação. Enfim, consegui. Sabia até o asfalto estava para chegar e chegou depois de uma longa e perigosa descida em rípio.

A paisagem era linda, lembra a Europa. Montanhas cobertas de gele nas pontas, vegetação verde musgo. Estava já cansado de pedalar no rípio e teria mais 15 km de asfalto pela frente. Meu joelho começou a doer, acho que apertei demais o elástico.

Cheguei a Hornopiren com muita fome. Parei num lugar que vendia frango assado com batata frita. Foi lá mesmo, pedi um desses.

Perguntei ao dono sobre algum camping. Ele me indicou um. Fui indo em direção ao camping, olhei para o céu e as coisas pareciam esquisitas. Achei melhor parar num hotel simples e perguntar o preço. Achei razoável, vinte mil pesos. Entrei no hotel e começou a cair um temporal.

Subi as coisas para o quarto, tomei aquele banho quente maravilhoso e decidi ir ao mercado. Demorou muito pra chuva aliviar, fui só mercado embaixo dela. Repus mantimentos, estou andando com dois dias de comida. Ainda tirei umas fotos da cidade, não tão bonito com um tempo desses.

Acabei de receber uma mensagem de um trabalhador do setor de cargas da TAM do aeroporto de Cumbica. Mandou um lindo recado falando que recebeu a caixa da bike e que por curiosidade entrou no site Giraventura, estampado em uma das etiquetas. Marcelo Brito, o seu nome. Uma pessoa do setor de cargas, cheio de sonhos como todos nós. É por conta dessas pessoas que consigo realizar os meus sonhos. Obrigado Marcelo.

Amanhã, acordo cedo, pegar uma barca às 9h, travessia de quatro horas para Leptepu e destino Caleta Gonzalo. Tomei um comprimido para dor. São 21h30, ainda está de dia mas é hora de dormir.

Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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