Dia #7: Puyuhuapi



►Depois de uma noite de chuva intensa, fiquei alegre ao olhar pela janela de manhã ao olhar para o céu. Ledo engano, chovia o tanto quanto ontem, ou mais.

Enfim, vamos ao nosso ofício diário, pedalar, seja lá em qualquer condição. Tomei café com a tia Lety, uma simpatia de senhora que me contou sobre sua vida sem filhos e sem marido por opção.

Saindo do hostel, encontrei o casal que ontem, havia conhecido na estrada, a Aline e o Julien. Pedalamos juntos, boa companhia para um dia que o céu não deu uma trégua. Se um dia faltar água no mundo, vem pra cá, aqui tem de sobra.

A Carretera é muito linda, obviamente seria mais com sol, mas não posso reclamar. Passar por essas montanhas, com várias cachoeiras e rios é, sem dúvida, um grande privilégio.

Seguimos estrada rumo à Puyuhuapi, à princípio, 48 km. A ideia de conhecer o Parque Nacional Queulat, com uma das suas maiores atrações, o glaciar do Ventisquero, foi aos poucos virando sonho.

Incrível, mas tudo é uma questão de percepção. Aos poucos me acostumava à chuva e ao frio e quando olhava ao lado e via o Julien pedalando com as pernas para fora, tinha cada vez mais certeza que nos acostumamos à situações adversas. E por pior que seja a situação, sempre há um lado positivo.

A uns quinze quilômetros do fim, eis que surge a placa: fim do pavimento. Daqui por diante, rípio molhado. Fomos beirando o Lago Risopatron, repleto de cachoeiras, nele desaguando.

Chegamos a Puyuhuapi, vindo parar num hostel incrível. Por aqui, só ciclistas, argentinos, alemães, franceses. Uma verdadeira troca de experiências. Pessoas vindo de lugares variados, alguns há meses na estrada, outros com histórias de sobrevivência pela Carretera Austral.

Uma hospedagem incrível, não poderia ser melhor, um casal de donos, uma simpatia, fazendo de tudo para agradar a todos. Fomos recepcionados com um café quente para passar um pouco do frio congelante. A noite, um cordeiro é um bolo para a ceia feito especialmente para nós.

Saquei minhas coisas da bike e fui ao banho. Roupas encharcadas tiveram a oportunidade de secar junto à lareira quentinha da sala.

Aproveitei para me abastecer de comida num mercado próximo. Serão mais dois dias de Carretera até Coyhaique, uma das maiores cidades da rota. Até lá, a fé que o tempo melhore, mas mesmo que não, a rota segue rumo ao Ushuaia.

Hoje é 31 de dezembro, último dia de 2018, o ano mais estranho da minha vida. Muita coisa ocorreu, perdi minha mãe, consegui recompor-me um pouco, novos caminhos profissionais, novos sonhos. Assim vamos para 2019, um ano desafiador, talvez mais de 2018, um ano de muito trabalho.

Você, que lê o meu blog e aos meu parceiro Mundo Terra, agradeço imensamente pelo carinho e atenção, e por apostar no Projeto Giraventura. Desejo a todos um feliz 2019!


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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