Dia #6: La Junta



►Fui dormir ao som de chuva e trovão e pedindo a Deus, não muito, um pouco menos de chuva e frio no dia seguinte.

Apesar das preces, não fui atendido. O dia continuava como o anterior e haja coragem para levantar da cama quentinha e enfrentar isso. Minhas roupas haviam secado é muito vagarosamente fui colocando-as. Afinal, eram minutos preciosos de as sentir secas, pelo menos pelas próximas horas. Comi um pão com geleia, tomei um chá para aquecer o corpo. Fiz um café e o coloquei em uma térmica, na esperança de tomar algo quente no meio do mundo gelado ao meu redor. Comecei a descer minhas coisas e montá-las, respirei fundo, fiz uma oração e fui. Foram necessários quarenta minutos pedalando para o suor do meu corpo encharcar-me. E estava lá de novo, molhado por dentro e por fora. Entretanto, um pouco mais calejado depois de ontem, fiz uso desde o princípio do melhor acessório de todos que trouxe, um saco de lixo de sessenta litros. Cobri todo o guidão com ele; tanto protegia a barraca e o isolante térmico, ambos presos a ele, como minhas mãos. A sensação era de deboche, ao perceber a água da chuva tentando sem sucesso encontrar caminhos tortuosos para molhar minhas luvas. Minhas mãos quentinhas, envolvidas por um mero saco de lixo, agradeceram. Eram 66 km até La Junta pela parte asfaltada da Carretera Austral. Uma viagem cansativa, só se parava para tirar fotos quando a chuva resolvia dar um tempinho. As montanhas com seus picos cobertos de neve davam cara de vez em quando meio às nuvens carregadas. Assim fui, até avistar dois ciclistas à minha frente. Apertei o passo para poder alcançá-los. Uma brasileira e um francês pedalando juntos desde Puerto Montt. Uma boa companhia para distrair um pouco nos próximos quilômetros. Ela, Aline Souza, uma multi atleta de Florianópolis com um amigo francês que encontrou em Puerto Montt. Continuei sem eles depois. Já próximo de La Junta, fui direto à hospedagem Tia Lety, indicada pelo meus amigos Cesar e Regina. Aqui, depois de 69 km e 738 m de elevação acumulada, uma senhorinha muito simpática recebeu-me calorosamente. Bem, tudo o que precisava, banho quente e roupas secas. Vila pequena, mais para descansar e passar essa noite na esperança da chuva dar uma trégua nos próximos dias. Vamos torcer!


Nestor Freire, ciclista e empreendedor

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

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