Dia #5: Villa Santa Lucía




►Desabou uma tempestade com ventos nessa madrugada, assustador. As rajadas de vento batiam com tanta força na janela, que pareciam que iam estourar os vidros. Quando o vento dava uma aliviada, a chuva torrencial desabava sobre Chaiten com pingos do diâmetro de um dedo. Acordei diversas vezes à noite e quando me despertei, a chuva ainda continuava. E veio aquela famosa pergunta: e agora? Partir ou ficar? Desci para tomar café, havia um casal de belgas na mesa, ficamos conversando e eu torcendo para que no final da conversa a chuva aliviasse. Que nada! O casal se foi e apareceu a dona da casa. Falei para ela que tinha ficado assustado à noite por conta da tempestade. Ela: isso não é nada, no inverno é pior! Subi ao meu quarto, já eram 9h, resolvi fazer a barba. Quando voltei, olhei através da janela e aos poucos a chuva foi acalmando. Parei, pensei e me disse: é hora de partir. Arrumei minhas coisas rapidamente, desci tudo, coloquei minha calça impermeável, capa e protetor de bota, arrumei a bike e parti rumo a Villa Santa Lucia, 76 km ao sul, a vila arrasada em dezembro de 2017 por um aluvião (enxurrada de lama), causado pelo excesso de chuvas (122 mm em menos de 24 h) e o desprendimento de um glaciar. Nessa ocasião, morreram 21 pessoas, entre habitantes e turistas. Logo nos primeiros quilômetros, peguei um vento de popa e desenvolvia 20 km/h de média. Nas primeiras duas horas, já havia pedalado quarenta quilômetros. Passava entre montanhas completamente cheia de nuvens pesadas, o asfalto já havia secado. Pedalava feliz, meu joelho esquerdo, já aquecido, não me incomodava. Quando na minha frente surge um desvio à direita da Carreteira Austral. Vi um ponto de ônibus, parei para comer algo e olhei toda Carreteira à minha frente, completamente escura; começou a trovejar. Fiz uma busca rápida no GPS para ver se havia algum abrigo nos próximos quilômetros, nada. Decidi encarar! Pedalei em direção a chuva na esperança de encontrar algum ponto de ônibus pelo caminho, caso ela apertasse muito. A chuva começou a chegar, de frente, com granizo. Comecei a pedalar mais rápido para me aquecer. Parei para pegar um saco de lixo que havia trazido. Cobri o guidão com ele, protegi minhas luvas já encharcadas do vento gelado. Foram dez minutos de granizo intenso, depois só a chuva permaneceu e aos poucos foi se dissipando. Cheguei a Puerto Cadenas atravessando uma linda ponte estaiada sobre o Rio Yelcho. Parei um casal de americanos sob a ponte; conversamos um pouco e lhes pedi que tirassem uma foto minha. Perguntaram aonde ia, falei: Ushuaia! Expressão de espanto e disseram: boa sorte, está longe, nós estávamos lá (de carro). Continuei minha jornada, faltavam mais 25 km quando a chuva voltou de novo, dessa vez forte, gelada, sem trégua. Estava ensopado de suor por dentro, mas procurava pedalar para não desaquecer. Sentia o ar gelado batendo de frente e tentava manter minha temperatura comprimindo o peito para que a camisa não tocasse meu corpo; funcionou por alguns instantes. A quinze quilômetros do final, a grande surpresa, uma serra. Comecei à subir, à princípio, isso me aquecia, mas quando sua inclinação passou dos 9%, não deu mais para mim. Desci e comecei a empurrar debaixo de um temporal. Aos poucos meu corpo ia congelando. Quando a inclinação aliviava um pouco, subia para tentar aquecer-me. Perdi a noção de distância, o GPS travou. Imagina que faltavam oito quilômetros até Villa Santa Lucia. Só havia eu na estrada. Empurrava a bike na mão contrária para me previnir de um possível desabamento de terra. Foi então que vi uma antena, era o fim da subida. Imaginava que seriam pelo menos uns seis quilômetros de descida. Descia devagar para o frio não ser tão forte. A um quilômetro do fim da descida, finalmente avistei a vila. Estava temeroso de não achar um canto para ficar numa lugar tão pequeno. Entrei num mercado que também arrendava pequenas cabanas. O dono do mercado me perguntou se eu queria acampar. Pergunta estúpida, estava congelado, tremendo, imagina montar barraca nessas condições? Peguei uma cabana para mim, mais caro, paciência. No livro de registros de hóspedes, não conseguia escrever meu nome de tanto que tremia. Pedi um chocolate quente, a atendente me perguntou se eu estava bem. Não conseguia responder, pedi para que me levasse até a cabana.

Entrei na cabana, arranquei minha roupa, botas completamente ensopadas por dentro e por fora. Fui para a ducha quente e por lá fiquei. Acalmei finalmente. Estou bem fisicamente, o desgaste psicológico foi enorme nesse final. Cozinhei algo para comer no fogão da cabana, deitei e fiquei trinta minutos olhando ao teto, tentando acalmar mais. Uma mini lareira ajuda a secar as minhas roupas. Do lado de fora, uma chuva gelada sem trégua. Não se pára um momento pós-etapa. Lava-se roupa, seca-se roupa, faz comida, faz alongamento, etc, etc. Dia difícil. Torcer para amanhã o tempo melhorar um pouco. É muito desgastante pedalar nessas condições. Estou dentro da minha programação, sei que tenho dias de folga, mas quero abusar deles mais para o final da jornada. Que Deus ilumine meu caminho e traga a luz do sol para a Carreteira Austral. Até amanhã!


Nestor Freire, engenheiro e cicloviajante

Engenheiro mecânico formado pela FAAP, ciclista e palestrante, o paulistano Nestor Freire nasce em janeiro de 1967. Desde a infância, a bicicleta sempre esteve presente em sua vida. Continua...

® 2020 Giraventura Consultoria